quarta-feira, 28 de novembro de 2007

JIRAU DIVERSO Nº 13

JIRAU DIVERSO
Nº 13 – março.2007
por Enzo Carlo Barrocco

A poesia alagoana de José Inácio Vieira de Melo

O POEMA

AVE

Uma prece desponta na poeira:
neste defumador, bruma das almas,
nessa cruz da paixão. É sexta-feira –
falam no vinho em consoante flama.

Num cântico, tanger toda essa gente,
adentrar as cancelas dos currais,
e a prece, assimilada na tangente,
erguendo templos, constrói capitais.

O chocalho dos deuses chama a ave:
hora das trancas, bulício de chaves,
e o menino deseja o leite santo.

Reconhece-se nessa procissão
denso crivar da fome em profusão:
longa é a fila aos peitos dessa santa

O POETA

José Inácio Vieira de Melo, alagoano de Dois Riachos (distrito de Olho D´Água do Pai Mané), poeta e jornalista, no convés da fragata desde 1968, é um dos grandes representantes da poesia nordestina atual. A seca, o povo, as mazelas são temas muito bem representados no trabalho deste alagoano. Como ativista cultural, José Inácio organiza diversas coletâneas para novos poetas daquela região. Enfim, um cantador da alma nordestina.

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ESTANTE DE ACRÍLICO

Livros Sugestionáveis

Publicação Coletiva (Contos)
Autores: Jorge Machado / Paulo von Atzingen / Margareth Refkalefsky
Edição: Secult / FCPTN
Três bons contistas num livro oportuno. O cotidiano de Machado: atento e contemporâneo. A regionalidade de von Atzingen: inflexível e clássico. A concisão de Margareth: envolvente e sensual.

Revisita Selvaggia (Poesias)
Autor: Ronaldo Werneck
Edição: Poemação Produções / Íbis Libris
A poesia de Werneck reunida neste livro que eu diria essencial. Poesias múltiplas.
Depoimentos, fotos, lembretes e lembranças.

Abismo Intacto (Poesias)
Autor Ytérbio Homem de Siqueira
Edição: Livraria José Olympio Editora / Fundarpe
Os poemas místicos de Ytérbio são simplesmente belos. A poesia atrelada à religiosidade, o ponto mais forte nos textos do poeta.

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A FRASE DI/VERSA

Não ofendas ninguém porque corres o perigo de provocar o poderoso ou de maltratar o fraco.
- Ugo Foscolo (Zante 1778 – Londres 1827) poeta italiano

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DA LAVRA MINHA

SIMBIOSE

Enzo Carlo Barrocco

Esperemos a palavra
nascida de inumeráveis gargantas,
a simbiose entre homens e ruas,
planta indomável das calçadas.

Porque de agora em diante
é impossível abortar a fala
parida sobre
as muitas pautas dos gramáticos.

Poetas mencionarão sua geografia,
península léxica,
a nova peste contaminará
as páginas dos livros que virão.

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