quinta-feira, 17 de abril de 2008

O CONTO SERGIPANO DE ALUYSIO MENDONÇA SAMPAIO


Aluysio mendonça sampaio

(Aracaju 1926 - São paulo 2008)
Poeta, contista e ensaísta sergipano


CIDADE INVADIDA

A cidade foi invadida. Gatos metálicos tomaram-na de assalto, correndo incessantes por áspero chão cinzento. Para qualquer lado que se dirigisse, ali estavam eles, frieza de aço, miagem contínua. Era pior que rugir de leão, igual a sussurro de vento tempestuoso batendo em teto de zinco, dia e noite. Pareciam-lhe a princípio inofensivos e quase garbosos no deslizar fluente – agradável até o miar mal murmurado. Só a princípio. Depois apercebeu-se que tinham corpo e garras metálicas, de fácil cravar em carnes flácidas. Daí nasceu-lhe o medo, no começo ínfimo, em pânico após transformado. Não tanto por si, mas pelo pássaro: único no universo, luminosas plumas multicores, cantar extasiante, leveza de vôo, porte de bailado mágico. Costumava grudar-se-lhe ao colo, em doçura de afagos: fragilidade sentida. Precisava protegê-lo, indevassável abrigo contra as garras dos gatos invasores. Com que tristeza passou a impedir-lhe a saída, fechando a janela antes aberta ao sopro da aragem e à azulência do céu. Deu o pássaro para ficar triste, mas não deixava de bicar a vidraça, intransponível transparência entre ele e o espaço. Imaginou, então: o interior da sala não poderia ser redoma e acaso os gatos se enfurecessem quebrariam os vidros, invadindo o âmago do refúgio. Além disso, não poderiam permanecer toda a vida, ela e o pássaro, entre paredes, do mundo isolados por grades de medo. Decidiu construir uma gaiola. Ela própria a fez, paciente aranha a fiar teia protetora, de férrea resistência. Depois colocou o pássaro em seu interior, docilidade inesperada mesmo no amacio de amores e carícia. Todos os dias, gaiola aconchegada ao peito, saía. Via, assustada, passarem céleres os gatos furiosos. Atravessava a rua a correr, fugindo dos metálicos felinos. Chegava ao topo e, lá de cima, olhava a cidade embaixo, os gatos serpenteando as ruas. Não soltava, porém, o pássaro da gaiola, que poderia ele escapar-lhe e, talvez, cair em garras imantadas. Na gaiola protegido, o pássaro contemplava o céu azul, o verde das árvores e cantava, liberta alegria extravasada. Nunca se ouvira cantar tão belo assim! Esquecia o mundo, os outros e até o medo se lhe apagava. Foi quando aconteceu. Vendo o gato diante de si, logo pressentiu a ameaça. Apertou a gaiola contra o peito, firme atitude de defesa. Já não miando e quase a rugir, o gato aprestava o bote, mas o imobilizava luminosidade rubra, a incandescer-lhe os olhos faiscantes. O assalto, porém, foi brusco. Garras afiadas cravaram-lhe a carne, derrubando-a ao chão e de pronto romperam a gaiola: gelatinou-se a grade. O pássaro nem piou. Na queda, ainda viu ensangüentada mancha ao lado, no chão de asfalto – cinzento como o céu distante, os prédios, os gatos e o fundo de sua própria alma.

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