quarta-feira, 24 de março de 2010

CHUPA-CHUPA

Conto

por Enzo Carlo Barrocco



O Souza, na ponta da canoa, se preparava para jogar a tarrafa. Na popa, o velho Vantilde, escorando a montaria com o remo, fumava o seu cigarro de papelim. Uma lua encurvada pairava a meia altura, com poucas estrelas completando a paisagem. Ambos combinaram encostar o casco num remanso por se tratar de um lugar adequado para a pescaria. Até o presente momento – passava da meia-noite - não tinham pescado absolutamente nada e aquela noite estava particularmente fria. Souza constatou que a tarrafa, outra vez, engatara; portanto, teria que mergulhar, novamente, para desenganchá-la. A noroeste, aqui e acolá, uns raios riscavam o horizonte distante...
Estavam entre 20 e 30 minutos estacionados quando Vantilde consultou o compadre a possibilidade de procurarem outro lugar. O Souza concordou que iriam descer o rio e que ficariam às proximidades do porto da prima Miloca.
O velho Vantilde já tinha colocado a canoa em movimento quando subitamente um feixe de luz fortíssimo se acendeu por trás da mata. Os compadres sumamente intrigados entreolharam-se, embora não estivessem com medo. Dois velhos caboclos da Ilha de Colares acostumados às lides da noite não iriam se assustar com qualquer coisa. As famosas histórias das aparições de objetos voadores não identificados, os propalados chupa-chupa, eram corriqueiras e muitas pessoas já tinham feito relatos a respeito. Mas os dois compadres, agricultores calejados, ocasionalmente pescadores, nunca tinham visto absolutamente nada, seja visagem, curupira, matinta-pereira ou, seja lá, que diabo fosse.
A luz extremamente forte continuava embora os dois pescadores continuassem calados percebia-se claramente que ambos estavam extasiados. Veículo não era já que não havia estradas naquela região.
-“Cumpadi” – disse o Souza – Vamos descer o rio e continuar a nossa pescaria?
- Vamos! – respondeu o compadre.
Iam saindo quando o clarão se apagou; apenas a luz frouxa da lamparina, colocada no banco central da montaria, iluminava.
Os compadres se entreolharam enquanto a pequena embarcação deslizava sob a força do remo do velho Vantilde.

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