quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A POESIA INCONTESTE DE AFFONSO ÁVILA


O POEMA


Os negros de Itaverava

Três negros de Itaverava,

irmãos em sangue e aflição,
não dormiam, como os outros,
a noite que é sujeição,
dormiam, sim, as auroras
— as luzes em combustão
dos sonhos que, mesmo estéreis,
sucedem no coração.

Enquanto as almas penadas

nos caminhos pranteavam
o corpo que se perdera
e os cães com elas choravam,
na senzala não se ouviam
os passos que se cuidavam,
as vozes que, a medo e susto,
no paiol confabulavam.

Para quem é jaula o dia,

que seja conspiração
de perfídia e sortilégio,
de roubo e contravenção
a noite cujas estradas
não se sabe aonde dão,
a noite que enlaça o negro
com seus silêncios de irmão.
   


O POETA

 
Affonso Celso Ávila, mineiro de Belo Horizonte, poeta, ensaísta e crítico literário, no convés da fragata desde 1928, é um entusiasta incentivador cultural, especialista na literatura barroca mineira, considerado um dos mais importantes ensaístas vivos do  país. A poesia é o principal ofício deste escritor, que recebeu ao longo da vida importantes prêmios na área de literatura como o Prêmio Nacional  de Ensaio da Fundação Cultural de Brasília, Prêmio Jabuti e Premo FCW de Cultura. O escritor é autor de diversos livros de poemas, como O Açude e Sonetos da Descoberta, Discurso da Difamação do Poeta, Delírio dos Cinquent`anos, O Belo e o Velho e Cantigas do Falso Alfonso el Sábio. Na área do ensaio publicou, entre outros: Resíduos Seiscentistas em Minas, O Poeta e a Consciência Crítica, Iniciação ao Barroco Mineiro, Catas de Aluvião e Circularidade da Ilusão. Aos 82 anos de idade Ávila continua ativo levando sua poesia a todos os recantos Fundou nos anos 50 a revista Tendência e no final dos anos 60 a revista Barroco, que dirige até hoje. 


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