quarta-feira, 3 de outubro de 2012

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA, UM CONTISTA DO SUL DO BRASIL


O CONTISTA



Emanuel Medeiros Vieira, catarinense de Florianópolis, contista e jornalista, no convés da da fragata desde1945, já foi agraciado com diversos prêmios literários. Seus 17 livros publicados têm dado  ao escritor notoriedade e prestígio junto ao seu público leitor. Nomes consagrados da literatura nacional elogiaram e estudaram o obra de Emanuel, entre os quais Carlos Drummond de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Antônio Cândido, Mário Quintana, , Hélio Pólvora, Assis Brasil, , Paulo Leminski entre outros outros. Atualmente o escritor catarinense escreve para o blog literário “Nova Klaxon”(www.novaklaxon.blogspot.com).


O CONTO

NUM MOTEL TOSCO

Ela agora está dormindo (ou finge que dorme). São três horas da manhã. Toalha na barriga, em frente ao espelho. Estou velho e devastado. Sim, pelo espelho observo que ela, por não perceber que também a estava vendo, está de olhos abertos. Olhos abertos, parados. Infinitos. E vi que ela também estava velha e devastada. Quando a conheci, naquela zona de Luziânia, ela era nova, bonita e morena e a energia era grande. Já na primeira vez que saíra com ela, eu disse, “vou arrumar grana e te tirar daqui.” Dizia isso todos os meses. Fevereiro: “Vou arrumar grana e te tirar daqui”. “Vou arrumar grana e te tirar daqui.” No começo ela ria, quem sabe, com uma ponta de esperança, continuou rindo alguns meses, depois apenas fez silêncio, mas o rosto era ainda generoso. Mas os anos passaram (certamente eu a amava), um, dois, cinco, dez e, no final, ela apenas enterrava o rosto no travesseiro, enquanto eu olhava o que fora feito do meu corpo naquele espelho de um motel vagabundo. Nesta madrugada — enquanto um rádio toca uma guarânia —, fazem vinte e cinco anos da primeira vez. “Vou arrumar grana e te tirar daqui.” (Isto queria dizer: casa, sustento, FAMÍLIA, churrasco aos domingos no parque, uma missa anual, sorrisos, uma cachaça ao anoitecer). Era o nosso anoitecer. Fiquei me olhando e senti um arrepio (que nunca conseguirei descrever) pela minha devastação, os sulcos, as crateras no rosto, o ralo cabelo branco, o ventre enorme e eu a olhando através do espelho e ela, velha, carcomida também, ainda com algum traço daquela beleza tão pretérita. “Fizemos nossas Bodas de Prata”, eu disse com um sorriso de dor (crispado), como se vomitasse todos os restos de uma comida de véspera e ficasse infinitivamente vazio. Ela não disse nada, olhos baços, parados. Infinitos. É madrugada, eu a levo para a sua pensão, chove no asfalto, silêncio. No rádio, uma outra música lancinante e vou deixando Lucinete na pensão em que vive com outras prostitutas que um dia também foram jovens e que deviam também ter ouvido promessas vãs (“Vou arrumar grana e te tirar daqui”) e nada temos a dizer um para o outro. Apenas, um sinal vermelho no painel do carro indica que o óleo está acabando.
Brasília, setembro de 1990
 

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