quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

ENÉAS ATHANÁZIO: O CONTISTA E O CONTO



Enéas Athanázio, catarinense de Campos Novos, contista, cronista, novelista, ensaísta, crítico e biógrafo, iniciou-se na literatura ainda nos tempos acadêmicos, embora o primeiro livro só tenha sido lançado em 1973 – O Peão Negro, que é uma coletânea de contos.  Hoje, Enéas conta com 37 livros e 13 opúsculos, num total de 50 obras individuais. Residindo em Camboriú – SC, como ficcionista, foi designado pela crítica entre os regionalistas dos Campos Gerais, na trilha de Tito Carvalho e Guido Wilmar Sassi, embora sem sofrer influência deles. Seus trabalhos são publicados frequentemente em antologias, revistas, suplementos e jornais de vários estados brasileiros.










 











NÃO TEVE JEITO

Mal Janary Messias saiu do comitê e a moça rumou na sua direção. Alta e espigada, tinha olhos verdes e cabelos aloirados que desciam sedosos até os ombros. Vestia se bem e se movia com elegância em cima dos saltos altos, exibindo vaidosa as curvas do corpo. Quando o perfume que exalava lhe chegou às narinas, o advogado sentiu que estava diante de uma mulher de virar a cabeça de qualquer vivente. Brilhavam os olhos do solteirão no momento em que ela chamou com voz rouca:
– Dr. Janary! Dr. Janary!
Sorridente, estendia a mão morena, prendendo com firmeza a dele e procurando afastá-lo das pessoas que o envolviam. Com alguma dificuldade o rapaz se livrou e seguiu a até a sombra da aroeira folhuda do outro lado da rua.
– Sou a Letícia Bridon, professora no Caxambu – foi ela dizendo. – O senhor não me conhece, mas preciso de um favor seu.
Surpreso com aquilo, ele imaginava o que poderia fazer pela moça cheirosa. Esperou que não fosse algum desses pedidos impossíveis, feitos às vésperas das eleições. Não gostaria de desapontar uma pessoa assim. Ansiosa, a moça o fitava com os olhos incríveis, como se lesse nas faces sua inquietação.
– Não é nada de mais – explicou, manifestando com um gesto o receio de que fossem outra vez cercados pelos eleitores que se aproximavam. – Nada que o senhor não possa fazer!
– Muito bem, Letícia, vamos ver do que se trata.
– É que eu queria ser apresentada ao candidato – disse a moça meio nervosa, rindo sem jeito e olhando em redor para verificar se ninguém ouvia. – Sou apaixonada por ele, não posso perder a ocasião! – E repetiu, escandindo as sílabas: – A pai xo na da...
E agora? – cogitou o advogado. O candidato tinha fama de marica, não gostava de mulher, vivia rodeado de homens. É verdade que não aparentava, trajava se com discrição e tinha uma fala grossa de fazer inveja. Por mais que se esforçasse, Janary não encontrava na memória um episódio em que o candidato se envolvesse com mulher, não lhe constava que tivesse namorada ou mesmo caso passageiro. Por via das dúvidas, na convenção realizada na Capital, votara contra, mas fora vencido e agora, como chefe do Partido em São Simão, não podia deixar de apoiá-lo. Os caboclos da terra, campeiros desconfiados, trabalhavam contrariados e observavam atentos os gestos do candidato. Janary torcia para que não escapasse algum trejeito suspeito. Seria o fim. Mas isso não podia ser dito àquela moça e a solução era entrar no jogo e apresentá-la ao homem, mesmo que tivesse que desenvolver uma operação de cerco.
– Está bem – concordou ele. – Não vai ser fácil, com tanta gente, mas vamos chegar no homem até você falar com ele. Quando isso acontecer, não desgrude. Você tem que ajudar.
Trocaram um olhar cúmplice e o advogado se envolveu com os outros, nos preparativos da recepção e do comício. Não demorou e alguns foguetes estouraram para os lados do campo, anunciando a chegada da comitiva. Uma caravana barulhenta de carros e caminhões entrou levantando poeira pela rua principal. Gritos, buzinas, foguetes e até alguns tiros formavam uma zoeira infernal, espantando as vacas nos potreiros e os guapecas vadios que chispavam arrepiados e ganiçando para baixo dos soalhos. Nas casas, irritadas, as mulheres acalmavam crianças alvorotadas com a bulha incomum.Em pouco a caravana atingiu a praça e estacou. Muito teso e aprumado, o candidato desceu e foi recebido por Janary e outros partidários. Fecho-se um círculo em torno do grupo e as pessoas procuravam cumprimentar o candidato, estimulá-lo, trocar palavras. Ali perto, muito atenta, a professora tentava furar a roda e se aproximar, enquanto o visitante apertava mãos suadas e nem sempre limpas. Não parecia perceber e tinha uma palavra simpática para todos, segurando um tempão cada mão calosa que lhe estendiam. Notando, afinal, uma brecha no povaréu, Janary fez sinal à moça e ela se aproximou com grande agilidade, no maior sorriso, esbanjando beleza. Sua figura esguia e suave destoava no meio áspero daquela gente mal ajambrada e quando chegou perto provocou um ligeiro silêncio ou, pelo menos, reduziu o volume da zoada.
– Professor! – apressou-se Janary. – Quero apresentar lhe a nossa companheira Letícia. Quer conhecer o senhor.
A moça se colocou na frente do homem, mostrando se inteira, exibindo se como num desfile. O rosto se iluminava, olhos, dentes e cabelos rebrilhavam ao sol ardente quando ela estendeu o braço para o cumprimento. Embora seus lábios esboçassem um ligeiro sorriso profissional, o candidato não conseguiu esconder a contrariedade que lhe passou pela face e um leve enrugamento da testa. Ao cumprimento caloroso da mulher, respondeu com um toque rápido, enrolou palavras murmuradas e se integrou outra vez no magote de caboclos.
Desconcertada, a mestra do Caxambu reprimiu o sorriso e olhou com desalento para o advogado. Sem revelar surpresa no olhar divertido, Janary encolheu os ombros e fez um gesto que significava: “Não desista!” Ela entendeu de pronto, grudou-se nas pegadas do candidato e se dispôs a segui-lo sem descanso. Não lhe daria sossego!
Dali em diante não o largou mais. Por bem ou por mal, teria que notar sua presença, mesmo que se transformasse na lembrança mais desagradável daquela visita ao São Simão. E assim foi. Acotovelando e empurrando, pisando e sendo pisada, mantinha se firme ao seu lado, disputando o espaço com eleitores, cabos, chefes e chefetes, às vezes sujeitos mal encarados de assustar criança. Virando se para a direita, o candidato deparava com ela, solícita, sorridente; voltando se para a esquerda ou para trás, lá estava ela, ágil, passando o copo de água, apresentando quem chegava, lembrando algum nome esquecido, esclarecendo detalhes. E assim foi na andança pelas ruas poeirantes, nas visitas às figuras gradas e à igreja, na inspeção às obras públicas, em todos os lugares, enfim. Até no comício achou jeito de ficar a seu lado no palanque armado na praça.
Emburrado, não podendo mais esconder a irritação, o candidato tudo fazia para evitar a moça e fugir do assédio. Janary acompanhava tudo com ar divertido, as pessoas mais próximas notaram o que acontecia e aos poucos todas acompanhavam com interesse aquele jogo estranho e engraçado. As risotas, as caçoadas e as insinuações se espalhavam e muitos dos presentes afirmariam mais tarde que o visitante tratou de abreviar o programa e ver São Simão pelas costas, incluindo a apaixonada insistente. No momento em que cruzou as divisas do município, era visível o alívio que sentia e um suspiro nascido nas profundas escapou sem disfarce.
Enquanto isso, na bodega do Nhô Gué, a caboclada se divertia a la grande com o acontecido. Aquela cidade, com justa fama de valente, já tinha feito correr juiz, delegado, inspetor e autoridades menores. Até sujeitos temerosos e cueras foram postos para fora, jamais se atrevendo a voltar. Mas essa era a primeira vez que um candidato saía de São Simão corrido de mulher bonita.


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