quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A CURVA DAS TRÊS MANGUEIRAS

Conto

por Enzo Carlo Barroccco






Há tempos se falava que, à noite, na curva das três mangueiras muitas pessoas já tinham visto aparições; visagens como se diz por aqui. Pessoas idosas e acima de qualquer suspeitas afirmavam categoricamente que passando na curva, em algumas ocasiões, tinham presenciado certas “marmotas”. Contavam em detalhes, inclusive. Eu particularmente já passei inúmeras vezes na curva das três mangueiras e nunca vi absolutamente nada. Como é que esse pessoal vê toda a sorte de aparições? Até, hoje nunca consegui entender! Dizem alguns que em tempos remotos havia morado ali uma próspera família de cearenses, mas que com o tempo todos foram morrendo, ficando apenas alguns mais novos que acabaram por se mudar daquele lugar. De lembrança ficaram as propaladas mangueiras alvos dos episódios sobrenaturais.
Eu não vivo desafiando os entes da noite, acaso eles existam, mas saio a qualquer hora porventura seja necessário. O fato é que eu moro a dois quilômetros da curva e aqui a acolá uma casa simples desgarrada para a margem do caminho quebra a solidão deste lugar afastado de tudo.
Dois ou três dias da semana saio para pescar à noite no rio que corta nossa região, onde muitas famílias retiram seu sustento; embora sejamos todos agricultores, a pesca é uma atividade que complementa a nossa alimentação.
Pois bem! Certa feita, voltando da pescaria, que naquela noite se mostrou promissora, resolvi ficar um tempo ali na curva para verificar se realmente acontecia alguma coisa de anormal. Entrei por uma vereda, baixei a panela com os peixes, a sacola com os espinhéis e sentei num apodrecido tronco de andirobeira. Imaginei que fossem umas três ou três e meia da madrugada fria daquele meio de inverno onde se avistava uma ponta de lua minguante entre o arvoredo. Um vento fraco pelas folhas e nada, imperiosamente, nada que se pudesse dizer que ali vagasse alguma aparição. Era sexta-feira e enquanto estive ali, pessoa alguma passou no caminho; também com aquela fama toda aposto que alguém se dispusesse a passar por ali àquela hora! Estava naquele silêncio a uma hora ou mais.
“Estou perdendo tempo” - pensei. Retomei a panela e a sacola de espinhéis e dei de sair pela mesma vereda, quando ouvi, pelo menos duas pessoas, correrem desesperadamente caminho afora na direção oposta a minha casa. Sem dúvida me avistaram baçamente e supuseram alguma aparição, alimentando ainda mais a lenda da curva das três mangueiras. Fui embora tranquilamente com a minha penela de peixes e a sacola de espinhéis. No outro dia soube pelo compadre Antônio Filho que Zenóbio e Guilhermino, sobrinhos do velho Zeca, se defrontaram com um vulto que os perseguiu até o caminho do lago preto. Como eu já tinha contado a história para a minha mulher, quando o compadre nos contou, ela apenas me olhou furtivamente.

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