terça-feira, 9 de outubro de 2012

A VIOLÊNCIA SE DÁ A QUALQUER HORA




CONTO 

 por Enzo Carlo Barrocco


















Aguardávamos  um soar de apito às doze horas; excelente horário para um assassinato. Eu e Solano esperávamos um automóvel à praça fronteira que nos levaria ao Bule Azul, bairro do outro lado da cidade. Ambos  percebemos um carro vermelho  com uma faixa branca  sobre o capô, vagarosamente dobrar a esquina e seguir em direção ao portão lateral da grande fábrica. O apito finalmente soara e alguns segundos depois um aglomerado de gente atravessava o portão do prédio num vozerio característico de muitas pessoas juntas. Um dos turnos evidentemente acabara de cumprir horário. O automóvel parara justamente frente à saída como se esperasse alguém. Um homem magro de cabelos rentes saiu do carro pelo lado do carona, sacou uma arma escondida sob a camisa e atirou duas vezes. O alarido foi geral com pessoas  correndo desesperadamente para todos os lados. Feito isso o homem entrou no carro que saiu velozmente pela rua de asfalto novo desviando das pessoas que tentavam escapar. Quando nos aproximávamos, o nosso automóvel chegara com o motorista bastante apressado. Deu para perceber, entretanto, que a pessoa baleada era uma mulher. Fomos embora. No outro dia saberíamos pelos jornais detalhes desse desaforado crime.


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA, UM CONTISTA DO SUL DO BRASIL


O CONTISTA



Emanuel Medeiros Vieira, catarinense de Florianópolis, contista e jornalista, no convés da da fragata desde1945, já foi agraciado com diversos prêmios literários. Seus 17 livros publicados têm dado  ao escritor notoriedade e prestígio junto ao seu público leitor. Nomes consagrados da literatura nacional elogiaram e estudaram o obra de Emanuel, entre os quais Carlos Drummond de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Antônio Cândido, Mário Quintana, , Hélio Pólvora, Assis Brasil, , Paulo Leminski entre outros outros. Atualmente o escritor catarinense escreve para o blog literário “Nova Klaxon”(www.novaklaxon.blogspot.com).


O CONTO

NUM MOTEL TOSCO

Ela agora está dormindo (ou finge que dorme). São três horas da manhã. Toalha na barriga, em frente ao espelho. Estou velho e devastado. Sim, pelo espelho observo que ela, por não perceber que também a estava vendo, está de olhos abertos. Olhos abertos, parados. Infinitos. E vi que ela também estava velha e devastada. Quando a conheci, naquela zona de Luziânia, ela era nova, bonita e morena e a energia era grande. Já na primeira vez que saíra com ela, eu disse, “vou arrumar grana e te tirar daqui.” Dizia isso todos os meses. Fevereiro: “Vou arrumar grana e te tirar daqui”. “Vou arrumar grana e te tirar daqui.” No começo ela ria, quem sabe, com uma ponta de esperança, continuou rindo alguns meses, depois apenas fez silêncio, mas o rosto era ainda generoso. Mas os anos passaram (certamente eu a amava), um, dois, cinco, dez e, no final, ela apenas enterrava o rosto no travesseiro, enquanto eu olhava o que fora feito do meu corpo naquele espelho de um motel vagabundo. Nesta madrugada — enquanto um rádio toca uma guarânia —, fazem vinte e cinco anos da primeira vez. “Vou arrumar grana e te tirar daqui.” (Isto queria dizer: casa, sustento, FAMÍLIA, churrasco aos domingos no parque, uma missa anual, sorrisos, uma cachaça ao anoitecer). Era o nosso anoitecer. Fiquei me olhando e senti um arrepio (que nunca conseguirei descrever) pela minha devastação, os sulcos, as crateras no rosto, o ralo cabelo branco, o ventre enorme e eu a olhando através do espelho e ela, velha, carcomida também, ainda com algum traço daquela beleza tão pretérita. “Fizemos nossas Bodas de Prata”, eu disse com um sorriso de dor (crispado), como se vomitasse todos os restos de uma comida de véspera e ficasse infinitivamente vazio. Ela não disse nada, olhos baços, parados. Infinitos. É madrugada, eu a levo para a sua pensão, chove no asfalto, silêncio. No rádio, uma outra música lancinante e vou deixando Lucinete na pensão em que vive com outras prostitutas que um dia também foram jovens e que deviam também ter ouvido promessas vãs (“Vou arrumar grana e te tirar daqui”) e nada temos a dizer um para o outro. Apenas, um sinal vermelho no painel do carro indica que o óleo está acabando.
Brasília, setembro de 1990
 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

FLORES DE TRACUATEUA - CANTO Nº 3

Flores de Algodão

Não são palavras extremas
que ora trago na mão,
uns seis ou sete poemas,
flores brancas de algodão.

Os Lápis

Perde-se aqui o meu verso
entre meus dedos compridos,
o vago azul do universo,
os lápis adormecidos.

Simetria

Nada existe mais centrada
e aposto com quem quiser,
harmônica, simetrizada
que a vulva de uma mulher.

Insignificância

Com a mão larga e comprida
junto um punhado de areia,
vale bem menos a vida,
um terço dessa mancheia.

Trova para se consolar

Eu bem sei que embora sendo
a vida breve e amarga
vou, no entanto, vivendo
que a morte é certa e se alarga.

A POESIA DA IMAGEM - SONO DE CRIANÇA


DA SÉRIE RETRATOS

                                                      Foto: Enzo Carlo Barrocco

ALVARENGA PEIXOTO: O POETA INCONFIDENTE

Inácio José Alvarenga Peixoto, poeta fluminense (Rio de Janeiro 1744 – Ambaca, Angola 1793), estudou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janei...