terça-feira, 17 de julho de 2007

RIOS ENVENENADOS- 1º Canto





































MENOTTI DEL PICCHIA: A POESIA DE UM MODERNISTA


Menotti Del Picchia
São Paulo 1892 - Idem 1988
Poeta, romancista, cronista, ensaísta, pintor e jornalista paulista
NOITE
As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem.
Todos os rumores são postos em surdina,
todas as luzes se apagam.
Há um grande aparato de câmara funerária
na paisagem do mundo.

Os homens ficam rígidos,
tomam a posição horizontal
e ensaiam o próprio cadáver.

Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono em ensaio de morte.

No cemitério da treva
tudo morre provisoriamente.

ESTRELA E PIRILAMPO

sexta-feira, 13 de julho de 2007

RESISTINDO A TODAS AS OPRESSÕES - DE REPENTE UMA FÁBULA ISRAELENSE


Capa do livro: De Repente nas Profundezas do Bosque

Resenha
por Enzo Carlo Barrocco

De Repente nas Profundezas do Bosque (Companhia das Letras, 2007, 148 páginas) é o novo livro do poeta, romancista e ensaísta israelense Amos Oz (Jerusalém 1939), um inconformado cidadão preocupado com os rumos tomados pela política de seu país. Neste mais novo trabalho, Amos Oz dá algumas alfinetadas no atual regime governamental de Israel criando uma história que diz bem o seu sentimento de inconformismo com as questões sociais. O livro se reporta à opressão, discriminação, violência, mostrando, entretanto, caminhos que levam à resistência a todos esses problemas. A história fala de um lugar paradisíaco onde não existe nenhum animal. Nas escolas é ensinado que todos os animais foram para o bosque, local terminantemente proibido e que, acredita-se, vive um misterioso demônio. O garoto Mati e sua amiga Maia, desconfiados com os donos do poder, resolvem entrar na floresta mesmo correndo todos os riscos. O questionamento é a principal função deste romance. Amos é um escritor que luta pela paz e em 2005 ele recebeu o prestigiado prêmio Goethe pelo seu irrepreensível sentido de responsabilidade moral do conjunto de sua belíssima obra. Politicamente Amos é ligado à esquerda israelense e participa ativamente do movimento “Israeli Peace Now” desde a sua fundação, em 1977. Diante de todas essas características Amos se vale do prestígio que detém em muitos países do mundo para denunciar, através de excelentes fábulas como esta. “De Repente nas Profundezas do Bosque” então é isso: uma fábula para mostrar a todos nós os bons caminhos que devamos seguir.

TRECHO DO LIVRO “DE REPENTE NAS PROFUNDEZAS DO BOSQUE”

CAPÍTULO I

A professora Emanuela explicou à classe como é um urso, como os peixes respiram e que sons a hiena produz à noite. Ela também pendurou na sala gravuras de animais e aves. Quase todos os alunos debocharam dela, porque nunca na vida tinham visto um animal sequer. E muitos deles não acreditaram que existissem no mundo tais criaturas. Pelo menos nas redondezas. Sem contar, disseram, sem contar que a professora não tinha conseguido encontrar na aldeia alguém que topasse ser seu marido, e por isso, disseram, a cabeça dela estava cheia de raposas, pardais, todo o tipo de invencionice que as pessoas sozinhas criam devido à solidão.

Só o pequeno Nimi, de tanto ouvir o falatório da professora Emanuela, começou a ter sonhos com animais à noite. A turma ria dele quando chegava contando, logo pela manhã, como seus sapatos marrons, que durante a noite ficam ao lado da cama dele se transformavam em dois ouriços que se arrastavam e examinavam o quarto a noite inteira, mas de manhã, quando ele abria os olhos, os ouriços voltavam de repente a ser um simples par de sapatos ao lado da cama. Numa outra vez, morcegos negros vieram à meia-noite, levaram-no sobre as asas e voaram com ele através das paredes da casa pelo céu da aldeia e por sobre os montes e os bosques, até que o conduziram a um palácio encantado.

Nimi era um menino um pouco descuidado, e andava quase sempre com o nariz escorrendo. Além disso, entre os salientes dentes da frente havia um belo intervalo. As crianças chamavam esse espaço de poço de lixo.

Todas as manhãs Nimi chegava à sala e começava a contar a todos um novo sonho, e todas as manhãs diziam-lhe chega, já ficou chato, fecha o teu poço de lixo. E quando ele não parava, atormentavam-no. Mas Nimi, em vez de ficar ofendido, também participava do deboche. Fungava e engolia o catarro, e começava de repente a chamar a si mesmo, numa alegria transbordante, exatamente pelos apelidos pejorativos que as crianças lhe deram: Poço de Lixo, Sonhador, Sapato-Ouriço.

Maia, a filha de Lília, a padeira, que sentava atrás dele na sala, cochichava algumas vezes: Nimi. Escuta. Você pode sonhar com o que quiser, com animais, com meninas, mas fique quieto. Não conte. Não vale a pena.

Mati dizia a Maia, você não entende, Nimi sonha só para contar os sonhos. E geralmente os sonhos dele não se interrompem nem quando ele acorda pela manhã.

Tudo divertia Nimi e tudo despertava nele alegria: a xícara rachada da cozinha e a lua cheia no céu, o colar da professora Emanuela e seus próprios dentes salientes, os botões que esqueceu de abotoar e o rugido dos ventos no bosque, tudo o que existe e acontece parecia engraçado a Nimi. Em todas as coisas via um motivo suficiente para se arrebentar de rir.

Até que uma vez ele fugiu da sala de aula e da aldeia, e entrou sozinho no bosque. Durante dois ou três dias, procuraram-no quase todos os aldeões. Por mais uma semana ou dez dias, procuraram-no os guardas. Depois, apenas seus pais e a irmã continuaram a procurar por ele.

Passadas três semanas ele voltou, magro e imundo, todo arranhado e machucado, mas relinchando de tanto entusiasmo e alegria. E desde então o pequeno Nimi não parou mais de relinchar e tampouco tornou a falar: não pronunciou nenhuma palavra desde que voltou do bosque, e só ficava circulando descalço e esfarrapado pelas ruelas da aldeia, o nariz escorrendo, mostrando os dentes e o intervalo entre eles, se metendo entre os pátios de trás, subindo nas árvores e postes, relinchando o tempo todo, com o olho direito lacrimejando sem parar por causa da sua alergia.

Era totalmente impossível voltar a freqüentar a escola por causa da "doença do relincho". As crianças, quando saíam da aula, provocavam-no intencionalmente, para que ele relinchasse. Eles o chamavam de Nimi, o potro. O médico esperava que isso fosse passar com o tempo: talvez ali, no bosque, ele tivesse se deparado com alguma coisa que o assustou ou abalou, e por enquanto está com a doença do relincho.

Maia dizia a Mati: será que eu e você deveríamos fazer alguma coisa? Como podemos ajudá-lo? E Mati respondia: deixa pra lá, Maia. Daqui a pouco eles vão se cansar disso. Daqui a pouco eles vão esquecê-lo.

Quando as crianças lhe davam um chega-pra-lá com zombarias, e atiravam pinhas e cascas sobre ele, o pequeno Nimi corria, relinchando. Subia bem alto nos galhos da árvore mais próxima e de lá, em meio às ramagens, se voltava para eles relinchando, com um olho lacrimejando e os dentes da frente salientes. E às vezes, até no meio da noite alta, parecia que se ouvia ao longe o eco de seu relincho no escuro.



AS VIOLETAS SENSUAIS DE FLORBELA ESPANCA


Florbela Espanca
Vila Viçosa 1894 – Matosinhos 1930
Poeta e contista portuguesa

Crisântemos

Sombrios mensageiros das violetas,
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.

Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d´amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!

Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais…

Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais!

quinta-feira, 12 de julho de 2007

UM GAVIÃO ME AGUARDA DE MANHÃ


Lago Água Preta: o Complexo do Utinga clama por proteção

Crônica
por Enzo Carlo Barrocco

Quase todas as manhãs quando vou pegar o ônibus para ir ao trabalho, no final das linhas Águas Lindas, bairro do mesmo nome, onde moro, um gavião, pássaro raro por aqueles lados, está comodamente pousado no alto de uma grande árvore à margem da estrada. Existe de um dos lados da rua uma reserva florestal que é mantida pela SECTAM - Secretaria Executiva de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, com o apoio do BPA - Batalhão de Policiamento Ambiental do Exército, cercada por um muro, até certo ponto, e por uma cerca aramada deste ponto em diante. Dentro dessa reserva existem três lagos de porte médio, que são: o Bolonha, o Água Preta e o Utinga e, por isso mesmo, toda essa área é denominada Complexo do Utinga. É um lugar lindíssimo e, certamente, existem várias espécies de animais que fazem do parque o seu habitat. Eu próprio já vi bandos de macacos, papagaios, garças, alguns tipos de cobras, beija-flores, várias espécies de insetos. Esse parque fica próximo de minha casa localizada em um conjunto habitacional. Da minha porta dá para vislumbrar a mata exuberante e protegida, evidentemente, pelo pessoal do Exército. Aliás, é das águas desses lagos que a Companhia de Saneamento do Pará abastece a cidade de Belém. Dentro do parque, por sinal, existe uma estação de tratamento. Lembro que quando servi o Exército nos idos de 1979, íamos fazer treinamento dentro do Parque que naqueles tempos era menos danificado Existiam, como até hoje existem, algumas trilhas e belos igarapés dentro da reserva o que dá uma maior importância a esse belo lugar. Recentemente o Governo do Estado indenizou todas as famílias que residiam dentro da área para que o manancial seja preservado livrando-o da poluição que, evidentemente, as pessoas provocam.
Portanto é um privilégio residir ao lado de uma reserva florestal de importância tão grande como o Complexo do Utinga. Roguemos para que as autoridades competentes não deixem que inescrupulosos destruam essa pequena mostra da floresta amazônica que é uma das poucas áreas verdes que existem nos arredores de Belém. Seria um crime hediondo deixá-la à sorte de todo tipo de depredação como acontecem em outras áreas que deveriam, também, ser preservadas. Quanta vida existe ali! Em vista disso, meus amigos, juntemos-nos aos que realmente querem preservar o que ainda resta para que,
mais adiante, não nos arrependamos de atitudes que não tomamos.
Ah! Hoje mesmo aquele gavião ainda me esperava!

Em: 12.07.2007

terça-feira, 10 de julho de 2007

JIRAU DI/VERSO N° 4

JIRAU DI/VERSO
Nº 04 – Junho.2006
por Enzo Carlo Barrocco

A poesia mineira de Adélia Prado

O POEMA

Poema Começado no Fim

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.
A POETA

Adélia Luzia Prado Freitas, mineira de Divinópolis, poeta, contista e romancista, no convés da fragata desde 1935, publicou, no início da década de 1970, seus primeiros versos em jornais e periódicos da época. Seu primeiro livro, “Bagagem”, publicado em 1976, é excepcionalmente bem recebido pela crítica. A linguagem despojada e direta dos seus textos faz de Adélia uma escritora diferenciada dentro do cenário de nossa literatura.
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Estante de Acrílico
Livros Sugestionáveis

“Repertório Selvagem” (Poesias)
Autora: Olga Savary
Edição: Multimais Editorial / Fundação Biblioteca Nacional
São doze livros reunidos em “Repertório Selvagem”, sendo dois inéditos, publicados entre os anos de 1947 e 1998. Savary é fugaz e estonteante.

“O Louco” (Poesias)
Autor: Gibran Khalil Gibran
Edição: Acigi
A poesia suave de Gibran cativa pela simplicidade . Pequenas histórias, o que torna a leitura bastante agradável.

“O Despertar do Amor” (Memórias)
Autor: Eno Teodoro Wanke
Edição: Plaquette
As aventuras e descobertas do autor quando estudante na década de 1940, em Ponta Grossa – PR. Este livro pertence à série “Os Tempos do Nunca Mais”. Wanke, no entanto, é essencialmente poeta.
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A FRASE DI/VERSA

”No fim tudo dará certo. Se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim”.
- Fernando Sabino (Belo Horizonte 1923 – Rio de Janeiro 2004) contista, romancista e cronista mineiro
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DA LAVRA MINHA



 

A VOZ PARNASIANA DE ALBERTO DE OLIVEIRA


Alberto de Oliveira
Palmital de Saquarema 1857 – Niterói 1937
Poeta fluminense

A Vingança da Porta


Era um hábito antigo que ele tinha:
Entrar dando com a porta nos batentes.
— Que te fez essa porta? a mulher vinha
E interrogava. Ele cerrando os dentes:

— Nada! traze o jantar! — Mas à noitinha
Calmava-se; feliz, os inocentes
Olhos revê da filha, a cabecinha
Lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.

Uma vez, ao tornar à casa, quando
Erguia a aldraba, o coração lhe fala:
Entra mais devagar... — Pára, hesitando...

Nisto nos gonzos range a velha porta,
Ri-se, escancara-se. E ele vê na sala,
A mulher como doida e a filha morta.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

O DIÁRIO DOS PENSADORES - PÁGINA 5


Esperar é o tormento do desejo.
- Joaquim Manuel de Macedo (Itaboraí 1820 – Rio de Janeiro
1882) poeta romancista, dramaturgo e jornalista fluminense

É verdade que a liberdade é algo precioso – tão preciosa que só deve
ser concedida a poucos.
- Vladimir Ilitch Ulianov, o Lenin (Simbirsk, atual Ulianovsk 1870 – Gorki 1924) político russo

Uma vida com drogas é escravidão, autodestruição e morte. Qualquer glamourização de seu uso é perigosa e enganadora. É mentira.
- Fernando Henrique Cardoso (Rio de Janeiro 1931) sociólogo, ensaísta e político fluminense, ex-presidente da República

Cada vez que nasce uma criança em teu quarteirão, um novo tempo começa a correr para alguém.
- Aníbal Machado (Sabará 1894 – Rio de Janeiro 1964) cronista, ensaísta, romancista e contista mineiro

Caminhante, não há caminho. Faz-se o caminho ao andar.
- Antônio Machado y Ruiz (Sevilha 1875 – Collioure, França 1939) dramaturgo e poeta espanhol

É importante para mim que as pessoas encarem a vida de um modo diferente vendo que as mulheres podem seduzir e ter fantasias sexuais.
- Louise Veronica Ciccone, a Madonna (Bay City 1958) cantora e atriz americana

Cada um ao nascer traz sua dose de amor, mas os empregos, o dinheiro, tudo isso nos resseca o solo do coração.
- Vladimir Maiakovski (Bagdadi 1893 – Moscou 1930) poeta e dramaturgo russo nascido na Geórgia

Bom que saibam que existem flores.
- Cyro de Mattos (Itabuna 1939) poeta, contista, novelista, cronista e jornalista baiano

Democracia com fome, sem educação e saúde, para a maioria, é uma concha vazia.
- Nelson Mandela (Umtata 1918) político sul-africano

É quase sempre preferível perder pela força a perder somente pelo medo da força.
- Niccolo Machiavelli (Florença 1469 - Idem 1527) ensaísta, político e filósofo italiano

ALVARENGA PEIXOTO: O POETA INCONFIDENTE

Inácio José Alvarenga Peixoto, poeta fluminense (Rio de Janeiro 1744 – Ambaca, Angola 1793), estudou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janei...