terça-feira, 25 de setembro de 2007

A POESIA MAIOR DE MANUEL BANDEIRA


Manuel Bandeira
Recife 1886 - Rio de Janeiro 1968
Poeta, cronista e ensaísta pernambucano


Rondó dos Cavalinhos

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O sol tão claro lá fora
E em minhalma — anoitecendo!

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Alfonso Reys partindo,
E tanta gente ficando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minhalma — anoitecendo!

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

TIA ZIRLA

Miniconto
por Enzo Carlo Barrocco
Eram, sem bem me lembro, sete horas da manhã. Havia uma “puxada” da cozinha para trás, onde se tomava o café da manhã, se almoçava, se conversava. Tia Zirla (21 anos completados), vinda de Baieux, ficara conosco alguns dias. Casa do interior você sabe, o banheiro é longe. Então, naquela manhã, ouvi um sibilo para um dos lados da casa. Eu, sozinho que estava, levantei-me para ver o que era, por curiosidade, apenas. Só inclinei a cabeça para ver por trás da parede. Nossa!!! Meu coração subitamente acelerou e fiquei estático no alto dos meus 12 anos. Tia Zirla agachada ao pé de uma planta urinava despreocupadamente. Ai! Bem de frente para onde eu estava. Diante daquela esplêndida e fascinante visão comecei a tremer. Que sexo lindo ela tinha - lábios grossos, clitóris rubro, delicadamente depilado nas extremidades. Ao fim de tudo e sem que ela me visse corri como um louco para o cipoal.


sexta-feira, 21 de setembro de 2007

A PAISAGEM EM FRENTE




OSWALD DE ANDRADE: UM MODERNISTA DE QUATRO COSTADOS


OSWALD DE ANDRADE
São Paulo 1890 – Idem 1954
Poeta, romancista e dramaturgo e jornalista paulista

A DESCOBERTA

Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra
os selvagens
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam por a mão
E depois a tomaram como espantados
primeiro chá
Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real
as meninas da gare
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

COM ISMAEL NERY POR OUTROS CAMPOS DE TRIGO

por Enzo Carlo Barrocco



Ismael Nery, pintor, desenhista, ilustrador, cenógrafo, poeta e filósofo paraense (Belém 1900 – Rio de Janeiro 1934) aos nove anos de i
dade se mudou com a família para a então Capital Federal. Em 1915, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes, no entanto a abandonou algum tempo depois, pois não se adaptou à disciplina escolar. Em 1920, viajou para a Europa tendo freqüentado a Academia Julian, em Paris. Voltou ao Brasil algum tempo depois vindo a trabalhar no Patrimônio Nacional do Ministério da Fazenda, onde conheceu o poeta Murilo Mendes (Juiz de Fora 1901 – Lisboa 1975), seu amigo por toda a vida. Em 1922 casou-se com a poeta Adalgisa Ferreira (Rio de Janeiro 1905 – Idem 1980) que depois viria a ser conhecida como Adalgisa Nery. Em 1926, Ismael deu início a um sistema filosófico de fundamentação católica e neotomista, cujo nome Murilo Mendes batizou de Essencialismo, mas esse sistema em nada se converteu visto que Ismael não deu prosseguimento a ele. Em 1927 fez outra viagem à Europa onde entrou em contato com o pintor bielorusso Marc Chaggal (Vitebsk 1887 — Saint-Paul-de-Vence, França, 1985) e outros pintores surrealistas. Sua obra sofreu influências importantes como a metafísica do pintor italiano nascido na Grécia Giorgio de Chirico (Vólos 1888 – Roma, Itália 1978) e do cubismo do pintor espanhol Pablo Picasso (Málaga 1881 – Mougins, França 1973). A figura humana, retratos, auto-retratos e nus são as suas preferências. Trabalhou, também, em várias técnicas aplicadas em desenhos e ilustração de livros. Em 1931, contraiu tuberculose e, a partir daí, suas figuras tornaram-se mais viscerais e mutiladas. Durante os seus 33 anos de vida participou somente de três exposições individuais e outras quatro coletivas. Esquecido por mais de 30 anos foi resgatado a partir da VIII Bienal de São Paulo, em 1965. Nery era um homem à procura de si mesmo. Renegava veementemente a condição de pintor, preferindo ser filósofo. Mendes escreveu para o jornal o Estado de São Paulo: “...Nery achava que muitas intenções da pintura já estavam realizadas definitivamente; por exemplo, a primeira vez que viu Tintoretto, achou inútil continuar a pintar...”. Os críticos dividem a obra de Nery em três fases: de 1922 a 1923, a expressionista; de 1924 a 1927, a cubista, com evidente influência da fase azul de Pablo Picasso; finalmente, de 1927 a 1934, adotou o surrealismo, sua fase mais importante e promissora. Murilo Mendes preservou alguns desenhos e poesias de seu amigo, sendo responsável pelo redescoberta de Nery nos anos 1960. Portanto, meus amigos, homenageemos Ismael porque homenagens, sob todos os aspectos, ele merece.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

JIRAU DI/VERSO nº 9

JIRAU DIVERSO
Nº 09 – novembro.2006por Enzo Carlo Barrocco
A poesia sul-mato-grossense de Raquel Naveira
O POEMA
JASMIM-DO-CABO

Todo jardim deveria ter um jasmim-do-cabo,
aquela flor que perfuma,
embalsama,
derrama óleo grosso
nos pés da noite.
Todo jardim deveria ter um jasmim-do-cabo,
o dia transcorreria em agonia,
mas a lua viria
desatar os laços da magia
e nos tiraria o fôlego.
Todo jardim deveria ter um jasmim-do-cabo,
absorveríamos no pulmão
uma torrente de pétalas brancas
e voaríamos como anjos
tocando banjos na noite.


A POETA

Raquel Naveira, sul-mato-grossense de Campo Grande, poeta e ensaísta, no convés da fragata desde 1957, é uma das poetas mais engajadas no que se refere às atividades culturais do Centro-Oeste. A poesia pura, direta e que pode ser bebida na concha da mão chamou a atenção de famosos escritores como Lygia Fagundes Telles, Antônio Houaiss e Ledo Ivo que reconhecem e apreciam o belíssimo trabalho de Raquel que, inclusive, pertence à Academia Sul-mato-grossense de Letras.
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ESTANTE DE ACRÍLICO

Livros Sugestionáveis


“Pra Valer a Vida” (poesias)
Autor: Dalton Luiz Gandin
Edição do Autor
Um pequeno, mas excelente livro de Gandin, poeta de São José dos Pinhais – PR. Trova, hai-kais e poemas livres ilustrados com belas fotos em preto-e-branco.

“O Nariz Curvo” (contos)
Autor: Haroldo Maranhão
Edição: Secult / Imprensa Oficial do Estado do Pará
A escrita de Haroldo Maranhão é uma navalha afiadíssima. Aqui oito contos habilmente construídos. Alguns pornograficamente belos.

“Poemas de Angola” (poesias)
Autor: Agostinho Neto
Edição: Editora Crodecri Limitada
A poesia engajada pela sofrida África colonialista, mormente Angola, à época mergulhada numa guerra civil sem precedentes. Agostinho Neto se tornaria o primeiro presidente Angolano.

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A FRASE DI/VERSA
Na adversidade conhecemos os recursos de que dispomos.
- Horácio (Venúsia 65 – Roma 8 a.C.) poeta romano

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DA LAVRA MINHA



PAULO MENDES CAMPOS E A POESIA DAS ALTEROSAS


PAULO MENDES CAMPOS
Belo Horizonte 1922 – Rio de Janeiro 1991
Poeta, contista e cronista mineiro


NESTE SONETO


Neste soneto, meu amor, eu digo,
Um pouco à moda de Tomás Gonzaga,
Que muita coisa bela o verso indaga
Mas poucos belos versos eu consigo.

Igual à fonte escassa no deserto,
Minha emoção é muita, a forma, pouca.
Se o verso errado sempre vem-me à boca,
Só no peito vive o verso certo.

Ouço uma voz soprar à frase dura
Umas palavras brandas, entretanto,
Não sei caber as falas de meu canto

Dentro de forma fácil e segura.
E louvo aqui aqueles grandes mestres
Das emoções do céu e das terrestres.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

O DIÁRIO DOS PENSADORES - PÁGINA 10

Tens nos lábios o olvido mais perfeito
E o letes vai fluindo nos teus beijos.
- Charles Baudelaire (Paris 1821 – Idem 1867) poeta francês

A arte é a tocha sagrada que ilumina compassivamente as mais terríveis profundezas, os abismos vergonhosos e torturados do ser.
- Thomas Mann (Lübeck 1875 – Zurique, Suíça 1955) romancista alemão

Não faças nada que teu inimigo possa saber.
- Sêneca (Córdoba, na atual Espanha 04 a.C. – Roma 65 d. C.) dramaturgo, filósofo e político romano

Eu agora – que desfecho!
Já nem penso mais em ti.
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
- Mário Quintana (Alegrete 1906 – Porto Alegre 1994) poeta, contista e jornalista gaúcho

A religião entre os homens é um campo cultivado por medo ou por interesse.
- Kahlil Gibran (Bsharri 1883 – Nova York 1931) poeta libanês

É que fui condenado a viver do que cantar.
- Djavan (Maceió 1949) cantor e compositor alagoano

O entusiasmo é o sal da alma.
- Santo Agostinho (Tagasta, atual Souq-Ahras, Argélia 354 – Hipona, Numídia 430) religioso, católico e teólogo romano, santo da igreja católica

O amor jamais consulta os registros do estado civil.
- Honoré de Balzac (Tours 1799 – Paris 1850) romancista francês

Sou um cavalo de um arreio só que não foi destinado à atrelagem ou ao trabalho em equipe.
- Albert Einstein (Ulm 1879 – Princenton 1935) físico americano nascido na Alemanha

Aquele que Deus quer salvar pode fazer o que quiser e será preservado.
- Mahatma Gandhi (Porbandar 1869 – Nova Delhi 1948) líder pacifista e político indiano.

Quem se mostra facilmente seduzido, facilmente se torna sedutor.
- Eça de Queiroz (Povoa do Varzim 1845 – Paris 1900) contista e romancista português

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

ALVARENGA PEIXOTO: O POETA INCONFIDENTE


Inácio José Alvarenga Peixoto, poeta fluminense (Rio de Janeiro 1744 – Ambaca, Angola 1793), estudou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro, assim como na Universidade de Coimbra, em Portugal, onde conheceu o poeta Basílio da Gama (São José do Rio das Mortes, atual Tiradentes - MG 1740 – Lisboa, Portugal 1795) de quem se tornou um grande amigo. Exerceu o cargo de Juiz de Fora da Vila de Sintra em Portugal, bem como a de Senador pela cidade mineira de São João Del-Rei. Também exerceu o cargo de Ouvidor da comarca de Rio das Mortes. Alvarenga, por esse tempo, se dedicou à agricultura e à mineração. O poeta tinha um caráter entusiasta e generoso, mas, ao mesmo tempo era ambicioso e perdulário. Com isso conquistou amigos, inimigos e muitas dívidas. Foi amigo dos poderosos da época e partilhava com os demais intelectuais de seu tempo idéias libertárias advindas do Iluminismo. Por fim, pressionado pelas dívidas e pelos altos impostos, acabou se envolvendo na Inconfidência Mineira. A temática amorosa era uma das vertentes da poesia de Alvarenga Peixoto que era casado com a poeta Bárbara Heliodora (São João Del-Rei, MG 1758 – São Gonçalo do Sapucaí 1819). Alvarenga era amigo dos poetas Cláudio Manoel da Costa (Ribeirão do Carmo, atual Mariana, MG 1729 – Vila Rica, atual Ouro Preto 1789) e Tomás Antônio Gonzaga (Porto, Portugal 1744 – Maputo, Moçambique 1810). Em seus poemas é fácil perceber uma postura crítica quanto à sociedade da época. Entre os poetas árcades, Alvarenga foi o que mais se envolveu na Conjuração. Sua diminuta obra foi recolhida por Rodrigues Lapa e apresenta alguns dos sonetos mais bem acabados do arcadismo brasileiro. O poeta freqüentava constantemente Vila Rica. Denunciado como participante da trama foi deportado para Angola onde veio a falecer. Fiquemos, portanto, com três raríssimas jóias produzidas pelo vasto universo da mente de Alvarenga.

À D. BÁRBARA HELIODORA

(Poema dedicado à sua esposa,
remetido do cárcere da Ilha das Cobras)

Bárbara bela, Do Norte estrela,
Que o meu destino Sabes guiar,
De ti ausente Triste somente
As horas passo A suspirar.

Por entre as penhas De incultas brenhas
Cansa-me a vista De te buscar;
Porém não vejo Mais que o desejo,
Sem esperança De te encontrar.

Eu bem queria A noite e o dia
Sempre contigo Poder passar;
Mas orgulhosa Sorte invejosa,
Desta fortuna Me quer privar.

Tu, entre os braços, Ternos abraços
Da filha amada Podes gozar;
Priva-me a estrela De ti e dela,
Busca dous modos De me matar!


À MARIA IFIGÊNIA

Em 1786, quando completava sete anos.

Amada filha, é já chegado o dia,
Em que a luz da razão, qual tocha acesa,
Vem conduzir a simples natureza:
— É hoje que teu mundo principia.

A mão que te gerou, teus passos guia;
Despreza ofertas de uma vã beleza,
E sacrifica as honras e a riqueza
Às santas leis do Filho de Maria.

Estampa na tu' alma a Caridade,
Que amar a Deus, amar aos semelhantes,
São eternos preceitos de verdade;

Tudo o mais são idéias delirantes;
Procura ser feliz na Eternidade,
Que o mundo são brevíssimos instantes.


DE AÇUCENAS E ROSAS MISTURADAS

De açucenas e rosas misturadas
não se adornam as vossas faces belas
nem as formosas tranças são daquelas
que dos raios do sol foram forjadas.

As meninas dos olhos delicadas,
verde, preto ou azul não brilha nelas;
mas o autor soberano das estrelas
nenhumas fez a elas comparadas.

Ah, Jônia, as açucenas e as rosas,
a cor dos olhos e as tranças d'oiro
podem fazer mil Ninfas melindrosas;

Porém quanto é caduco esse tesoiro:
vós, sobre a sorte toda das formosas,
inda ostentais na sábia frente o loiro!

O POÉTICO MINICONTO DE JORGE TIMOSSI


Jorge Timossi
Buenos Aires 1936
Poeta, contista e jornalista cubano nascido na Argentina

migração

O funcionário da alfândega abriu a maleta de couro gasto, comprovou que aquele imigrante levava apenas sua pesada tragédia pessoal, fechou-a com muito cuidado e murmurou, como se não se referisse a ninguém em particular: "Passe, de qualquer maneira acho que não vai lhe ser de nenhuma utilidade."

ALVARENGA PEIXOTO: O POETA INCONFIDENTE

Inácio José Alvarenga Peixoto, poeta fluminense (Rio de Janeiro 1744 – Ambaca, Angola 1793), estudou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janei...