Sou mesmo sozinho. Todo o universo mora em meus olhos, e o outro universo não me diz respeito. Moro sozinho comigo mesmo. Pintei meu retrato no fundo do ego e eu me contemplo e a mim mesmo mesmo nego (me faça o avesso de uma velha farsa) mas sou mesmo eu e isso a mim basta.
IDMAR BOAVENTURA é poeta e professor. Mora em Conceição do Jacuípe, BA. Tem publicado o livro "O desossar (d)as horas" (Tribuna Cultural, 2004). Poema extraido de "A Outra Margem" (Secretaria de Cultura: Fundação Pedro Calmon, 2008).
Do blog do Giogio Silva, Paulo André e Thiago Lins
Sosígenes Marinho da Costa, poeta e cronista baiano (Belmonte 1901 - Rio de Janeiro 1968) passou a maior parte de sua vida na cidade de Ilhéus - BA, e se tornou um dos poetas brasileiros mais conceituados. Recatado e avesso à autopromoção, publicou apenas um livro em vida: Obra Poética, em 1959, ainda assim por insistência dos amigos. Trabalhou no jornalismo e foi membro da Academia dos Rebeldes, grupo que contava com a participação do romancista baiano Jorge Amado (Itabuna 1912 - Salvador 2001). Na década de 1950 foi secretário da Associação Comercial e Telegrafista do Departamento de Correios e Telégrafos, em Ilhéus. Pelo livro publicado em 1959, Sosígenes ganhou o Prêmio Jabuti em 1960. O poeta é vinculado à terceira geração do Modernismo. Segundo o crítico literário e poeta José Paulo Paes (Taquaritinga 1926 - São Paulo 1998): "a ter como certas as datas de composição das peças enfeixadas na primeira parte da Obra Poética, quando ainda andava acesa a campanha dos modernistas contra o soneto em prol da institucionalização do verso livre, entretinha-se opoeta a escrever seus 'sonetos pavônicos', todos rigorosamente rimados e metrificados, nos quais são perceptíveis traços parnasianos e, sobretudo, simbolistas, ainda que tais sonetos nada tenham de passadistas, caracterizando-se antes por uma modernidade que se aparenta, como a de Quintana, na exploração criativa das possibilidades expressionais dessa forma fixa, então esclerosada pela prática mecânica e abusiva". As imagens preciosíssimas e excelente musicalidade fazem de Sosígenes um poeta original, um artista do verso, com sutilezas e cores variadas. Os sonetos crepusculares deste poeta são admiráveis, inspirados em paisagens das cidades de Ilhéus e Belmonte. O seu longo poema "Ianarana" é um monumento modernista comparado, até, ao "Cobra Norato" do poeta gaúcho Raul Bopp (Tupanciretã 1898 - Porto Alegre 1984). Também famosos são os "sonetos pavônicos", nos quais sua mente fertilíssima cria aves fantásticas. O crítico literário e poeta José Paulo Paes teve fundamental importância para a reunião das poesias de Sosígenes Costa, pois organizou sua publicação em 1978 e 1979 e, também, lhe dedicou estudos críticos. Fiquemos, portanto, com três belíssimas jóis criadas pelo vasto universo da mente de Sosígenes:
Viola, Minha Viola: Uma excelente pedida para o domingo
Croniquetas
Por Enzo Carlo Barrocco
Momento de êxtase da música brasileira, ontem, domingo, no programa “Viola, Minha Viola” da TV Cultura de São Paulo, apresentado por Inezita Barroso (São Paulo 1925), que foi o encontro de dois gênios da nossa música: Yamandu Costa (Passo Fundo, RS 1980) e Renato Borghetti (Porto Alegre 1963) dignos representantes da música instrumental gaúcha. Momentos como estes, que não acontecem a todo instante, é que elevam o nível da Música Popular Brasileira. Parabéns a produção do programa!
Ricardo Corona (Pato Branco 1962) Poeta e contista paranaense
A GARGALHADA
DO MACACO
Para Sheila Tramujas
Acordei com um retalho
de fio umbilical na boca.
Ariadne, feito peixe mutante,
tecia em meus lábios
o sabor que só agora traduzia.
Sabor que viera no vento,
da margem do grande útero
- um uivo na memória -
De lá vêm sinais elétricos,
pensamentos líquidos
de seres umedecidos
e pulmões duplamente ativados,
que mostram o caminho das escamas
e as pegadas em terra firme.
E ouvem a gargalhada do macaco.
A mãe era uma vaca. O pai, portanto, não podia ser outra coisa senão um touro. O filho mais velho pastava na vida, um burro. O caçula, grande mal-criado, vivia de bode amarrado. Para fechar o curral, havia a filha do meio, ovelha negra da família.
Ovelha que um dia o Amor veio domesticar, vestindo-a de branco.