terça-feira, 9 de junho de 2015

A POESIA ANTIGUANA DE ALTHEA ROMEO MARK



O POEMA...

MANÁ

Cai a chuva.
Volumosas gotas transparentes
marcam a terra poeirenta.


Telhados enferrujados dos assentos do mercado

protegem os úmidos e retardatários

tomados de surpresa.



Uma agitada massa marrom

de formigas aladas

fascina a noite.



Hipnotizadas

pelo brilho das luzes da rua

se aglutinam em direção ao brilho.



Asas crepitantes.

são precipitadas ao chão

como anjos caídos.



Com a primeira luz da manhã

dedos marrons escavam a terra molhada;

baldes empilhados de formigas sem asas.



Risos e alegria ressoam na aldeia Africana.

limpam  as retintas lareiras de pedra a partir das cinzas de ontem.

São jogados galhos secos que se incendeiam.



As mãos abanam com papelão

Para dar início a grandes fogueiras.

As colheres de madeira removem o sujo das panelas de ferro.



As formigas são torradas, se reinventam e tornam-se

um banquete temperado e crocante

caído do céu.
 
Tradução:  Guilhermo Favaro Pez

























...E A POETA


Althea Romeo Mark, antiguana de Saint John’s, poeta, novelista e educadora, no convés da fragata desde 1948, fez seus estudos universitários  de educação em inglês e literatura americana moderna. A escritora viveu em vários países como os Estados Unidos, Libéria, Inglaterra e Suíça. Publicou ao longo de sua carreira literária alguns livros de poesias, como: The Silent Dancing Spirit, 1974; Palaver: West Indian Poems, 1978; Two Faces, Two Phases, 1984 e Beyond Dream: The Ritual Dancer, 1989. Seus poemas e outros escritos têm sido incluídos em várias publicações, sendo alguns deles encontrados na grande rede. Antígua e Barbuda   este pequeno país caribenho (um arquipélago constituído de  37 ilhas) nos deu essa excelente poeta que continua a nos brindar com o seu belo trabalho literário.


terça-feira, 26 de maio de 2015

BERGEN-BELSEN

Enzo Carlo Barrocco

Foto: National Archives and Records Administration, College Park, Md.- EUA






















Tudo era sofrimento
Em dores se contorciam
Eram estrelas apagadas
Nas fímbrias dilaceradas
Das horas amarguradas
As forças  se consumiam.

Dentro das câmaras frias
Porém, o que mais se ouviam
Eram prantos abafados
Gritos dilacerados
Dos corpos horrorizados
Com a morte que se entrevia.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A POESIA ANGOLANA DE JOÃO MAIMONA

O POEMA...




AS MURALHAS DA NOITE



         A mão ia para as costas da madrugada.

         As mulheres estendiam as janelas da alegria

         nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.



Entre os dentes do mar acendiam-se braços.



         Os dias namoravam sob a barca do espelho.

         Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.

         E da chuva de barcos chegavam colchões,

         camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas

         onde cantavam soldados de capacetes

         por pintar no coração da meia-noite.



         Eram os barcos que guardavam as muralhas

         da noite que a mão ouvia nas costas

da madrugada entre os dentes do mar.






















...E O POETA

João Maimona, angolano de Quibocolo, município de Maquela do Zombo, poeta, ensaísta, crítico literário e político, no convés da fragata desde 1955, devido a perseguições teve que fugir com a família para a República do Zaire em 1961. Em Kinshasa, em 1975, ingressou na Faculdade de Ciências, tendo estudado Humanidades Científicas regressando a Angola em 1976. Algum tempo depois, fixou residência em Huambo, onde se licenciou em Medicina Veterinária. O poeta é diplomado em estudos superiores especializados em virologia médica e epidemiologia animal, pelo Instituto Pasteur de Paris e pela École Nationale Vétérinaire d´Alfort, na França. Maimona atualmente é membro-fundador da Brigada Jovem de Literatura do Huambo e membro da União dos Escritores Angolanos. Incansável combatente cultural mostrando para o mundo a literatura e arte angolanas.  

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A CARGA INUSITADA

Conto
por Enzo Carlo Barrocco























Salvador era o motorista da ambulância de uma das cidades da Zona do Salgado e, certa época, diariamente trazia o pessoal enfermo para Belém. Não falhava um dia sequer. Quando passava pela barreira da Polícia Federal de Ananindeua ligava a sirene para comprovar que realmente trazia gente doente para os hospitais da capital. Um certo dia àquela passagem diária, pontualmente à 07 horas da manhã, intrigou Leôncio, um dos guardas federais que tirava serviço na barreira. A princípio não levou a sério aquelas conjecturas, no entanto ficou remoendo aqueles pensamentos. Então, mais ou menos às 07 horas da manhã a tal ambulância dirigida pelo mesmo motorista passava pelo posto da Polícia Federal com a sirene ligada rumo a algum hospital de Belém. Será que todo dia adoecia um cristão naquela pequena cidade do litoral? -pensava Leôncio. Encafifado com aquela passagem diária, o guarda pensou em uma estratégia a fim de parar a ambulância para ratificar se o carro transportava doentes.

            Era uma sexta-feira e, às sete da manhã, na cabeça da ladeira aparece a ambulância com a sirene ligada. Leôncio e o colega Bezerra foram para o meio da pista interditar o veículo. Fizeram sinal para o cara estacionar e esse se encostou ao meio-fio. Leôncio se aproximou argumentando que por telefone avisaram que haviam roubado uma ambulância numa cidade próxima, O motorista visivelmente perturbado com a situação, imediatamente puxou os documentos do porta-luvas. O outro guarda se aproximando deu ordem para o condutor sair do carro. “Mas, senhor”- disse o assustado motorista – “estou com gente doente aí atrás!” O guarda tanto insistiu que  o homem desceu. Na averiguação – pasmem – onde deveria estar o enfermo, haviam caixas e mais caixas de peixes, certamente para serem negociados em Belém.  A ambulância e as caixas de peixes, evidentemente, foram apreendidas; o motorista, por seu turno, bateu com o costado na sede da Polícia Federal na Almirante Barroso.

            Quem gostou foi D. Isaíldes, tia do guarda Leôncio, que perguntou ao sobrinho um dia desses: “Quando é que a pescaria vai dar boa de novo? ‘Tô’ precisada!”.


ALVARENGA PEIXOTO: O POETA INCONFIDENTE

Inácio José Alvarenga Peixoto, poeta fluminense (Rio de Janeiro 1744 – Ambaca, Angola 1793), estudou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janei...