terça-feira, 18 de dezembro de 2007

COM GRANDE OTELO POR OUTROS CAMPOS DE TRIGO


por Enzo Carlo Barrocco


Sebastião Bernardes de Souza Prata, o Grande Otelo, ator, cantor e compositor mineiro (Uberlândia 1915 – Paris, França 1993) teve sua primeira experiência artística quando conheceu uma companhia de teatro mambembe e decidiu sair de Uberlândia acompanhando essa companhia, com a anuência, é claro, da diretora Abigail Parecis que o levou para São Paulo. O pequeno Sebastião, depois disso, foi adotado pela família do político Antônio de Queiroz, chegando a estudar até a terceira série ginasial. Na década de 1920 chegou a trabalhar ao lado de Pixinguinha que era o maestro na Companhia Negra de Revista. Em 1932, na Companhia de Teatro de Revista Jardel Jércolis (pai do ator Jardel Filho) ganhou o apelido que o consagrou. Os amigos o chamavam Pequeno Otelo, mas ele preferia o pseudônimo “The Great Otelo” que depois traduziu para o português. Seu grande parceiro no cinema foi Oscarito, outro mito do cinema brasileiro; juntos participaram de mais de dez chanchadas como: Carnaval no Fogo, de 1949; Aviso aos Navegantes, de 1950 e Matar ou Correr, de 1954. Mas foi em 1935 que Otelo apareceu pela primeira vez na tela participando do filme “Noites Cariocas”. Depois de trabalhar em filmes conhecidos como: Futebol em Família, de 1939 e Laranja da China, de 1940; foi chamado para trabalhar no primeiro filme produzido pela Atlântica: Moleque Tião, em 1943. Além de comediante, Otelo representava muito bem papéis dramáticos como nos filmes “Lúcio Flávio – Passageiro da Agonia, de 1977” e “Rio, Zona Norte”, de 1957. Otelo tinha 1,50 m de altura, olhos esbugalhados e os lábios espichados de bebê chorão. No Cinema Novo encarou seu principal papel nas telas no filme “Macunaíma”, de 1969. Ainda em 1942 participou do filme “It´s All True” dirigido por Orson Welles. Em Fitzcarraldo, de 1982, do alemão Werner Herzog, filmado nas selvas do Peru, quase enlouqueceu o ator Klaus Kinski, que tinha o ego do tamanho da Amazônia. Otelo precisava fazer uma cena em inglês, mas resolveu falar em espanhol, idioma que Kinski desconhecia. Irado, Kinski retirou-se do set. Quando o filme estreou na Alemanha, aquela foi a única cena aplaudida pelo público, contou depois o diretor Herzog. Uma tragédia familiar abalou as filmagens de Carnaval no Fogo: a mulher de Otelo matou o filho do casal de seis anos e suicidou-se. Otelo filmou a cena em que fazia o papel de Julieta (Oscarito fazia o de Romeu) sem saber de nada. Abalado, afastou-se da fita e só assistiu a cena quase 30 anos depois. Otelo trabalhou, também, em novelas globais, como: Sinhá Moça (primeira versão), 1986; Uma Rosa com Amor, 1972 – 1973) e Renascer, 1993. Como compositor Otelo deixou alguns excelentes trabalhos: A guerra acaba amanhã (com Herivelto Martins), A pátria está chamando (com Herivelto Martins), Bate o Sino Juvenal (com Haroldo Lobo), Batuque de Salvador (com Blecaute), Bom-dia avenida (com Herivelto Martins). Como cantor Grande Otelo gravou alguns discos que hoje são verdadeiras relíquias: Maria Bonita (1939), Columbia; Botafogo / Já Tenho Compromisso (1944), Odeon; Avec, Vous Madame! / Mano e Mano (1946), RCA Victor; A Marcha do Tatu (1954), Sinter; Samba Comunicado (1957), Continental; Carnaval com Quem? Mulheres à Vista (1959), Columbia; Co-co-co-ró! / Umbigo de Vedete (1959), Columbia; Ta Certo Sim! / Neném Transviado (1961), Columbia. Otelo participou de mais de 140 produções cinematográficas deixando um legado inapreciável às artes brasileiras. Portanto, a música, a televisão e o cinema nacional devem muito a Grande Otelo, esse gênio brasileiro que também trabalhou ao lado de Chico Anysio na Escolhinha do Professor Raimundo, da Rede Globo. Depois de lançar o livro de poesias “Bom-dia Manhã”, Otelo morreu em Paris ao sofrer um enfarto.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

ANTÔNIO, UM POETA BRASILEIRO

RESQUÍCIO


Antônio Brasileiro
(Rui Barbosa 1944)
Poeta e artista plástico baiano

As horas feitas de flandre
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.

Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.

No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.

JIRAU DIVERSO - PÁGINA 16

A escola do mundo, no ar em que é preciso viver, instruiu mais, segundo creio, que qualquer livro.
- Jean-Baptiste Poquelin, o Molière (Paris 1622 – Idem 1673) ator e dramaturgo francês

A ação política é cruel, baseia-se numa competição animal. É preciso derrotar, esmagar, matar, aniquilar o inimigo.
- Otto Lara Resende (São João Del Rei 1922 – Rio de Janeiro 1992) contista,romancista, cronista e novelista mineiro.

Estamos na luta para florescer amanhã como uma nova civilização mestiça e tropical orgulhosa de si mesmo.
- Darcy Ribeiro (Montes Claros 1922 – Brasília 1997) antropólogo, romancista político mineiro

Dos insubmissos tem emanado todo o progresso social.
- Júlio Ribeiro (Sabará 1845 – São Paulo 1890) romancista e ensaísta mineiro.

Ao homem livre, cabe libertar o escravo. Ao sábio, pensar pelo tolo. Ao feliz, auxiliar o desafortunado.
- Jean Paul Friedrich Richter (Wunsiedel 1763 – Bayreuth 1825) novelista,romancista, ensaísta e humorista alemão

Amor são duas solidões protegendo-se uma a outra.
- Rainer Maria Rilke (Praga 1875 – Valmont 1926) poeta austríaco

Duplamente se aprecia a felicidade que se custou alcançar.
- Baltasar Gracián (Calatayud 1601- Zaragoza 1658) ensaísta, filósofo e religios católico espanhol

Creio que a primeira prova de um homem verdadeiramente grande é a sua humildade.
- John Ruskin (Londres 1819 - Brantwood 1900) poeta e crítico inglês

A embriaguez é a ruína da razão, é a velhice precoce; é a morte temporária.
- Bertland Russell (Ravenscroft 1872 - Penrhyndeudraeth 1970) matemático e filósofo galês

Consegui o equilíbrio cortejando a insanidade.
- Renato Russo (Rio de Janeiro 1960 – Idem 1996) cantor e compositor fluminense

Infidelidade é como apanhar seu sócio furtando dinheiro do caixa. A relação está dissolvida.
- Fernando Sabino (Belo Horizonte 1923 – Rio de Janeiro 2004) romancista, contista e cronista mineiro

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

UM POEMA DE MÁRIO DE ANDRADE


Mário de Andrade
(São Paulo 1893 – Idem 1945)
Poeta, romancista, ensaísta e crítico de arte paulista

Minas Gerais de assombros e anedotas...
Os mineiros pintam diariamente o céu de azul
Com os pincéis das macaúbas folhudas.
Olhe a cascata lá !
Súbita bombarda.
Talvez folha de arbusto,
ninho de teneném que cai pesado,
talvez o trem, talvez ninguém...
As águas se assustaram
e o estouro dos rios começou.

A FENDA

Miniconto
 
por Enzo Carlo Barrocco






















Antônio reparou quando a viúva Costa, furtivamente, entrou nos aposentos do padre Bruno. Será que o padre estava lá? Lembrou da fenda no forro de madeira que dava para o quarto do pároco. Ah, não! – pensou – vou ver o que ela foi fazer lá! O sacristão subiu pela escada da sala e foi para o quarto da fenda, justamente sobre o cômodo do pároco. Antônio achou a cena grotesca. A viúva, sentado em uma das pernas do padre, o beijava desesperadamente. Um segundo à frente o padre abriu a batina e pôs o seu sexo à mostra. A viúva o agarrou delicadamente, acariciando-o, ao mesmo tempo em que entreabria a perna colocando o seu sexo também à mostra, já que, naquele momento, não usava calcinha. Antônio não suportou ver o resto da cena. Impossível imaginar o respeitabilíssimo padre Bruno naquela situação. Antônio, nessa mesma tarde, pediu dispensa da função.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

JACQUES PREVERT: O POETA CONTROVERSO

CANÇÃO

Jacques Prevert
Neuilly-sur-Seine 1900 - Omonville le Petit em 1977
Poeta e dramaturgo francês


Qual dia somos nós
Nós somos todos os dias
Meu amigo
Nós somos toda a vida
Meu amor
Nós nos amamos e nós vivemos
nós vivemos e nós nos amamos
E não sabemos o que é a vida
E não sabemos o que é o dia
E não sabemos o que é o amor.

Tradução: Luiz Edmundo Alves

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

PARA NÃO ESQUECER OS TEMPORAIS

Enzo Carlo Barrocco

O dia turvo me acomoda a alma
tudo é tão soturno, tão tristonho,
é possível a chuva e hoje ponho
no verso toda a sensatez e toda a calma.

Cai a chuva e o tempo enfadonho
pingo a pingo me ensopando a alma
põe-me à boca a prudência e a calma
por todo o tempo que tenho e disponho.

O tédio irremitente me aquieta
avoluma-se a chuva no telhado
e fico, desse modo, descansado

dentro de mim mesmo, rima e verso,
contudo temporais trago guardados
dentro dos meus olhos sossegados.

ALVARENGA PEIXOTO: O POETA INCONFIDENTE

Inácio José Alvarenga Peixoto, poeta fluminense (Rio de Janeiro 1744 – Ambaca, Angola 1793), estudou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janei...