quinta-feira, 29 de novembro de 2007

MELANCÓLICOS TEMPOS – AS PESQUISAS DE UM ACADÊMICO

Resenha

por Enzo Carlo Barrocco



Saturno nos Trópicos: pesquisa que durou cinco anos

Moacyr Scliar lançou agora em 2007, o livro Saturno nos Trópicos –A Melancolia Européia Chega ao Brasil (Companhia das Letras, 2007, 174 páginas) debruçando-se sobre um gênero que é um dos seus favoritos: o ensaio. Um estudo sobre a melancolia e que custou ao autor cinco anos de insistentes pesquisas, Saturno nos Trópicos é uma verdadeira miscelânea indo da Idade Média dos tempos da Peste Negra à Renascença, que foi uma época dos grandes avanços artísticos e científicos. Scliar faz um estudo muito interessante da cultura brasileira desde os seus primórdios até o século XX comentando sobre vários personagens, como: Jeca Tatu, de Monteiro Lobato e Macunaíma, de Mário de Andrade. No todo, Moacyr Scliar (Porto Alegre 1937) cronista, romancista e ensaísta, divide a sua narrativa em três fases: a antiguidade clássica, a Renascença e o Brasil, especificamente durante a transição para a modernidade. O autor lança mão dos seus conhecimentos médicos para, juntamente com a sua habilidade de escritor, dar vazão a sua erudição, e o resultado é este belo livro que, na minha biblioteca, tem lugar destacado. O próprio Scliar em uma entrevista declarou: “ O tema - a melancolia - sempre me fascinou. Às vezes é considerada doença e às vezes não. Eu me perguntava porquê no início da modernidade houve um enorme interesse pela melancolia. Nessa época houve uma epidemia de melancolia. A modernidade nasceu bipolar: melancólica e maníaca. E continua assim. Antes, a melancolia tinha uma aura artística e filosófica, mas hoje perdeu essa característica e é uma doença chamada depressão. No decorrer desse século a melancolia chegou ao Brasil, que nasceu melancólico porque nasceu com o genocídio indígena, com a escravidão, com a vinda de europeus contrariados, com a destruição da natureza. O Brasil tem um lado melancólico contra o qual a população reage, procurando neutralizá-lo com expressões como o carnaval e o futebol. Mas eu não quis fazer um livro acadêmico, embora tenha muitas citações. Procurei tornar a narrativa a mais amena possível porque eu parto do principio de que, pra ser bom, o livro não precisa ser chato. Ele pode ser um livro que ensine e traga idéias e não precisa aborrecer o leitor”. Scliar além de escritor consagrado é médico sanitarista com uma obra de 67 livros traduzidos para 12 idiomas, já tendo vencido vários prêmios literários, inclusive o Prêmio Jabuti. Recentemente Scliar foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Portanto, Saturno nos Trópicos – a Melancolia Européia Chega ao Brasil, é uma excelente oportunidade para se manter contato com a cultura e a erudição deste multifacetado escritor gaúcho.

TRECHO DO LIVRO Saturno nos Trópicos – A Melancolia Européia Chega ao Brasil

I. O RENASCIMENTO DA MELANCOLIA


A PESTE - E UM LIVRO

Em outubro de 1347 uma frota genovesa vinda do Oriente entrou no porto de Messina, na Sicília. Não foi uma chegada festiva, antes um tétrico espetáculo: quase todos os marinheiros haviam morrido ou estavam agonizantes. De peste.

Medidas foram tomadas pelas autoridades do porto visando isolar a tripulação dos navios - mas pelas cordas que mantinham os barcos atracados já chegavam à terra os ratos portadores das pulgas transmissoras da doença. Em poucos dias o temível mal já se espalhara pela cidade e seus arredores; em seis meses, metade da população morrera ou fugira. Estava começando a grande epidemia da Peste Negra que, a partir de 1347 (ou de 1348: os autores divergem), devastou a Europa, matando um terço da população e aterrorizando os sobreviventes. Narra um cronista da época, sobre a peste em Siena: "A mortandade começou em maio de 1348. É impossível descrever o horror: filhos ficaram sem pais, maridos sem esposas. Ninguém, nem mesmo por amizade ou dinheiro, queria enterrar os mortos, que eram atirados em enormes valas comuns... Ninguém chorava pelos mortos, porque todos esperavam morrer".

Em 1621 foi publicado na Inglaterra um livro intitulado A anatomia da melancolia (The Anatomy of Melancholy). Seu autor era Robert Burton. A obra teve grande sucesso; nada menos do que cinco edições foram publicadas enquanto o autor viveu, e uma sexta, ainda revista e ampliada por ele, saiu após a sua morte. Isso representava uma grande vendagem - o editor gabou-se de ter comprado uma propriedade com os lucros obtidos. Disse um contemporâneo, Thomas Fuller: "Raramente teve um livro, em nossa terra, tanta repercussão e num período tão curto". A história dessas edições envolve até tentativas de pirataria.

No contexto editorial de hoje, tal êxito é surpreendente. Em primeiro lugar, não se tratava exatamente de novidade: já os antigos gregos falavam de melancolia. Depois, não é um texto exatamente curto. Há uma edição de bolso (do New York Review of Books) que não cabe em qualquer bolso: são 1417 páginas. E trata-se de pesquisa exaustiva: Burton cita abundantemente e algumas partes são, na verdade, uma sucessão de citações, não raro em latim culto - à época um idioma já expulso por rudes línguas vernáculas, mas ainda usado como prova de conhecimento e erudição. É enorme a lista de autores a que recorre - inclusive e principalmente os da Antiguidade clássica: Plutarco, Juvenal, Ovídio, Catulo, Apuleio, Sêneca, Plínio, Heródoto... Mais do que isso, Burton aborda enorme quantidade de assuntos, como demonstra o índice remissivo: Alquimia e Amazonas, Apoplexia e Antimônio, Apetite e Aritmética, Anjos e Açores, para ficar só na letra A. É como se estivéssemos surfando nos sites de uma memória enciclopédica e prodigiosa. É verdade que a erudição não prejudicava a comunicação. Como Montaigne, Burton escrevia bem, de forma agradável, informal mesmo. Tratava-se de um pessimista - ele acreditava que o mundo só havia piorado desde a Criação -, mas era um pessimista bem-humorado. Consolando os maridos traídos, sustentava que essa é uma condição comum em muitas partes do mundo; que certos esposos, como acontece com a Lua, periodicamente exibem cornos. Com erudição ou com humor, o certo é que Burton fez renascer nos círculos intelectuais um termo que já existia, mas que agora ganhava novo significado. Burton estava falando de uma renascida melancolia.

A peste retorna à Europa, um livro sobre a melancolia é editado com grande sucesso. Pergunta: que há de comum entre esses fatos? A resposta mais óbvia é: nos dois casos trata-se de doença. Mas não é bem assim. A peste é, inquestionavelmente, uma doença. A melancolia, como veremos, às vezes é doença e às vezes não é. Além disso, a peste avança rapidamente para a cura ou para a morte. A melancolia se prolonga no tempo e sua evolução tem caráter indefinido.

Agora: há sim uma conexão entre as duas situações. A peste, doença transmissível, dissemina-se pela população. A melancolia também pode disseminar-se - uma espécie de contágio psíquico -, dominando o clima de opinião e a conjuntura emocional em um grupo, uma época, um lugar. E isso enseja a questão que é o nosso ponto de partida: seria o livro de Burton a ponta de um iceberg emocional, o reflexo de uma conjuntura psicológica e filosófica? Que conjuntura foi essa? Tratou-se de um fenômeno isolado, ou veio a repetir-se? Qual a relação, por exemplo, entre a melancolia e a chegada dos colonizadores ao Brasil, ocorrida quase exatamente no meio do período histórico considerado? Teria essa conjuntura um caráter cíclico, repetindo-se em outro lugar, em outra época?

Essas são as perguntas para as quais tentaremos achar respostas nas páginas que seguem. Para isso precisamos primeiro examinar o cenário em que surge a melancolia renascida.

(...)

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