sexta-feira, 12 de setembro de 2008

GILKA MACHADO: A POESIA DO DESEJO

por Enzo Carlo B arrocco

Gilka da Costa Melo Machado, poeta fluminense(Rio de Janeiro 1893 – Idem 1980), foi uma mulher avançada em relação ao seu tempo. Como poeta, foi combatida veementemente por parte dos escritores modernistas, mormente pelo poeta, romancista e ensaísta paulista Mário de Andrade (São Paulo 1893 – Idem 1945) que a achava escandalosa. Os poemas audaciosos de Gilka desafiavam os preceitos e a conduta moral de seu tempo colocando pânico nos falsos moralistas do início do século (hoje existem muitos ainda). Seus versos falam da condição feminina, expondo de forma ousada para a época o desejo da mulher se libertar das amarras machistas daqueles tempos. Em 1933, Gilka foi eleita “A Maior Poetisa do Brasil”, por concurso da revista “O Malho”, da cidade do Rio de Janeiro. Em 1979, a escritora foi agraciada com o prêmio “Machado de Assis”, da Academia Brasileira de Letras. Nesse mesmo ano a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro prestou homenagem à mulher brasileira na pessoa de Gilka. No início da carreira Gilka se valeu do simbolismo para escrever seus poemas. Obras principais: Cristais Partidos, 1915; Estados de Alma, 1917; “Poesias 1915 / 1918”, 1918; Mulher Nua, 1922, O Grande Amor, 1928: Meu Glorioso Pecado, 1918; Carne e Alma, 1931; Sublimação, 1928; Meu Rosto, 1947; Velha Poesia, 1968; Poesias Completas, 1978. Gilka Machado está perene dentro de nosso contexto literário, pois sua poesia é inigualável. Fiquemos, portanto, com três raríssimas jóias produzidas pelo vasto universo da mente de Gilka.


Fecundação


Teus olhos me olham

longamente,

imperiosamente

de dentro deles teu amor me espia.


Teus olhos me olham numa tortura

de alma que quer ser corpo,

de criação que anseia ser criatura


Tua mão contém a minha

de momento a momento

é uma ave aflita

meu pensamento

na tua mão.


Nada me dizes,

porém entra-me a carne a persuasão

de que teus dedos criam raízes

na minha mão.


Teu olhar abre os braços,

de longe,

à forma inquieta de meu ser,

abre os braços e enlaça-me toda a alma.


Tem teu mórbido olhar

penetrações supremas

e sinto, por senti-lo, tal prazer,

há nos meus poros tal palpitação,

que me vem a ilusão

de que se vai abrir

todo meu corpo

em poemas.



Esboço


Teus lábios inquietos

pelo meu corpo

acendiam astros...

e no corpo da mata

os pirilampos

de quando em quando,

insinuavam

fosforecentes carícias...

e o corpo do silêncio estremecia,

chocalhava,

com os guizos

do cri-cri osculante

dos grilos que imitavam

a música de tua boca...

e no corpo da noite

as estrelas cantavam

com a voz trêmula e rútila

de teus beijos...



Volúpia


Tenho-te, do meu sangue alongada nos veios,

à tua sensação me alheio a todo o ambiente;

os meus versos estão completamente cheios

do teu veneno forte, invencível e fluente.


Por te trazer em mim, adquiri-os, tomei-os,

o teu modo sutil, o teu gesto indolente.

Por te trazer em mim moldei-me aos teus coleios,

minha íntima, nervosa e rúbida serpente.


Teu veneno letal torna-me os olhos baços,

e a alma pura que trago e que te repudia,

inutilmente anseia esquivar-se aos teus laços.


Teu veneno letal torna-me o corpo langue,

numa circulação longa, lenta, macia,

a subir e a descer, no curso do meu sangue.



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