sexta-feira, 6 de julho de 2007

A POESIA MARAJOARA DE ANTÔNIO JURACI SIQUEIRA


Antônio Juraci Siqueira
Afuá, Ilha do Marajó, 1948
Poeta paraense

Noturno

Na fogueira da aurora eu me consumo
e ressuscito entre os lençóis da noite
para tecer meu ninho de discórdias
no frágil ramo do teu coração.

A minha pena – faca de dois gumes –
ao mesmo tempo fere e acaricia;
as minhas asas - guarda-sóis se abertas,
quando fechadas, grades de prisão.

Trago nas veias sangue canibal:
bebo esperanças, mastigo ilusões
e, às vezes, sorvo sonhos matinais.

Portanto não se engane: sou poeta
em cujo peito dorme um troglodita
que traz no coração pluma e punhal.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

A POESIA VERDADEIRA NA VOZ DE UM BRAVO SERTANEJO - OS MELHORES TRINADOS DO PATATIVA

Resenha
por Enz
o Carlo Barrocco

Ano passado Patativa do Assaré, cujo nome verdadeiro era Antônio Gonçalves da Silva (Assaré 1909 – Idem 2002) ganhou uma antologia de sua obra poética pelas mãos do também poeta, dramaturgo e compositor cearense Cláudio Portella (Fortaleza 1972), admirador confesso do grande poeta. Patativa do Assaré, Coleção Melhores Poemas (Editora Global, 2006, 384 páginas) reúne, como o próprio nome sugere, os melhores poemas desse cearense, inclusive com estudo introdutório assinado por Portella. A poética de Patativa se destaca pelo teor sociocultural. A preocupação que o poeta tinha pela sua gente tão penalizada do Nordeste, o sofrimento do sertanejo, o descaso dos políticos com as causas mais urgentes da região, enfim um digno representante do povo abandonado daqueles lados do Brasil. Assaré era um homem extremamente simples, mas com o raríssimo dom de lidar com as palavras. Com uma memória extraordinária, sabia de cor seus mais de mil poemas sem errar uma palavra. Os versos de Assaré não precisavam de ajustes, nasciam perfeitos. O livro contém belos poemas que foram gravados por alguns dos mais importantes cantores da MPB, entre os quais o Pernambucano Luiz Gonzaga (Exu 1912 – Recife 1989) e o conterrâneo de Patativa, Raimundo Fagner (Fortaleza 1949) . Os versos pungentes, a escrita forte deste filho do Vale do Cariri que também foi compositor, cantor e improvisador, é de uma beleza suprema. Os intelectuais brasileiros e também de fora do país se renderam à poesia do velho cantador tanto que Assaré foi alvo de estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris, França, assim como na Universidade Federal do Ceará e na Universidade de São Paulo. Patativa do Assaré viveu 93 anos deixando para seus leitores um legado que Cláudio Portella, inteligentemente, reuniu neste livro. Não deixe de conhecer a poesia excepcional de Patativa do Assaré, cego de um olho, semi-analfabeto, lavrador (trabalhou na roça até os 70 anos de idade), mas de uma incrível sensibilidade. Um poeta na verdadeira acepção da palavra.

UM POEMA DO LIVRO PATATIVA DO ASSARÉ, COLEÇÃO MELHORES POEMAS
Caboclo Roceiro
Caboclo Roceiro, das plagas do Norte
Que vive sem sorte, sem terra e sem lar,
A tua desdita é tristonho que canto,
Se escuto o meu pranto me ponho a chorar
Ninguém te oferece um feliz lenitivo
És rude e cativo, não tens liberdade.
A roça é teu mundo e também tua escola.
Teu braço é a mola que move a cidade
De noite tu vives na tua palhoça
De dia na roça de enxada na mão
Julgando que Deus é um pai vingativo,
Não vês o motivo da tua opressão.
Tu pensas, amigo, que a vida que levas
De dores e trevas debaixo da cruz
E as crises constantes, quais sinas e espadas
São penas mandadas por nosso Jesus
Tu és nesta vida o fiel penitente
Um pobre inocente no banco do réu.
Caboclo não guarda contigo esta crença
A tua sentença não parte do céu.
O mestre divino que é sábio profundo
Não faz neste mundo teu fardo infeliz
As tuas desgraças com tua desordem
Não nascem das ordens do eterno juiz
A lua se apaga sem ter empecilho,
O sol do seu brilho jamais te negou
Porém os ingratos, com ódio e com guerra,
Tomaram-te a terra que Deus te entregou
De noite tu vives na tua palhoça
De dia na roça, de enxada na mão
Caboclo roceiro, sem lar, sem abrigo,
Tu és meu amigo, tu és meu irmão.

terça-feira, 3 de julho de 2007

O DIÁRIO DOS PENSADORES - PÁGINA 4


Perdoe seus inimigos, mas não esqueça seus nomes.
- John Kennedy (Brookline 1917 – Dallas 1963) político e ex-presidenteamericano

Prefira sempre necessitar menos a possuir mais.
- Thomas Kempis (Kempen 1380 – Idem 1471) religioso católico alemão

Matamos o tempo; o tempo nos enterra.
- Machado de Assis (Rio de Janeiro 1839 – Idem 1908) poeta, contista, romancista, dramaturgo e ensaísta fluminense

A gente encontra o próprio estilo quando não consegue fazer as coisas de outra maneira.
- Paul Klee (Münchenbuchsee 1879 – Muralto 1940) pintor suíço

Entre o bom senso e o bom gosto está a diferença entre a causa e o efeito.
- Jean de La Bruyère (Paris 1645 – Idem 1696) ensaísta e romancista francês

A hipocrisia é uma homenagem que a corrupção paga à probidade.
- La Rochefoucauld (Paris 1613 – Idem 1680) ensaísta francês

Há pessoas inteligentes que, por força de se deixarem adular, acabam estúpidas.
- Carlos Lacerda (Rio de Janeiro 1914 – Idem 1997) poeta, dramaturgo e político fluminense

Liberdade é o direito de fazer algo que não prejudique a outrém.
- Henry de Lacordaire (Recey-sur-Ource 1802 - Sorèze, 1861) orador e religioso católico francês

Eu fiz um acordo com o tempo,
nem eu fujo dele,
nem ele me persegue.
Um dia a gente se encontra.
- Mário Lago (Rio de Janeiro 1911 – Idem 2002) poeta, ator e compositor fluminense

Amar com o objetivo de ser amado é humano, mas amar com o simples objetivo de amar é angelical.
- Alfhonse de Lamartine (Maçon 1790 – Paris 1869) poeta e político francês

Se você disser umas verdades a uma pessoa pela frente, ela só as ouvirá de você. Mas se você fizer isto pelas costas, ela as ouvirá de outras quinze ou vinte pessoas.
-
Fran Lebowitz (Morristown 1950) ensaísta e jornalista americana


AGOSTINHO NETO: O LIBERTADOR DE ANGOLA


Agostinho Neto
Vila Catete, município de Icolo e Bengo 1922 – Moscou 1979
Poeta e político angolano

Voz do sangue

Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue
Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South
Ó negro de África
negros de todo o mundo
eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.
Eu vos acompanho
pelas emaranhadas áfricas
do nosso Rumo

Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

PÉROLAS DE CARANANDUBA - Canto nº 1







































































UMA PÉTALA POÉTICA DE NILTO MACIEL


Nilto Maciel
Baturité, 1945
Poeta, contista, novelista e romancista cearense

Soneto crepuscular

Para Francisco Carvalho

Nos campos de meu pai antigamente
as chuvas inundavam meus pensares
e do pomar do céu pingavam frutos.
Ventos ninavam aves repousadas

nas árvores vigias de seu sono,
sentinelas da luz crepuscular.
As ovelhas baliam suas crias,
os vaga-lumes alumbravam tudo

e a solidão das vacas nos currais.
Duendes se assustavam co’os trovões.
Na escuridão dos quartos o perfume

do amor gemente à sombra dos lençóis.
Invernos que de mim se evaporaram
nos campos de meu pai antigamente.

terça-feira, 26 de junho de 2007

VEJA SE NÃO DÁ PRAZER! - AS CRÔNICAS MARAVILHOSAS DE LIA LUFT



Resenha
por Enzo Carlo Barrocco

A escritora Lia Luft lançou recentemente o livro de crônicas “Em Outras Palavras (Ed. Record, 2006, 223 páginas) fruto do trabalho semanal para a revista Veja. São 54 crônicas escritas para a revista desde 2004, cuja coluna chama-se Ponto de Vista. A escritora parte da premissa do questionamento. A cultura, o cotidiano, as relações humanas, a questão social, a política atual são abordados de maneira clara e simples levando o leitor a refletir sobre todos esses aspectos. As crônicas de “Em Outras Palavras” nos revelam ângulos que normalmente não seriam percebidos a olho nu, mas sob o olhar atento de Lia, o leitor se sente absolutamente seguro quanto ao entendimento dos assuntos abordados Das 54 crônicas selecionadas pela própria autora algumas sofreram alterações. Sobre essas alterações, Lia faz uma observação: “faz parte dos meus vícios, burilar meus textos enquanto for possível – pelo prazer e pelo respeito a mim mesma e ao meu leitor – não importa se é romance ou ensaio, poema ou crônica”. Devido a limitações de espaço na revista, Lia aproveitou para melhor se fazer entender. O otimismo é uma marca forte nos escritos da escritora, otimismo que tenta passar aos seus leitores, que não são poucos. Então, para quem não teve a oportunidade de ler as crônicas de Lia Luft, por qualquer motivo, na revista Veja, “Em Outras Palavras” é uma excelente chance para que as pessoas conheçam o excelente trabalho desta gaúcha de Santa Cruz do Sul, que além de cronista se dá muito bem escrevendo outros gêneros, como: poesias, contos, romances, peças teatrais e ensaios.


TRECHO DA CRÔNICA “PODE SER MELHOR”.

(...)

“A fome, as fomes: de dignidade, a essencial. De casa, saúde e educação, as básicas. Mas - não menos importantes - a fome de conhecimento, de possibilidades de escolha. Fome de confiança, ah, essa não dá para esquecer. Poder confiar no guarda, nas autoridades, nos pais e no país, e também nos filhos. Em nós mesmos, se nos acharmos merecedores. Confiar em quem votei, e em quem não recebeu meu voto: ser digno não é vantagem, é obrigação básica. Andamos tão desencantados, que ser decente parece virtude, ser honesto ganha medalha, e ser mais ou menos coerente merece aplausos”.

“Fome de conhecimento: não é alfabetizado quem apenas assina o nome, mas quem assina o que leu e compreendeu. De outro modo, perigo à vista. Não cursa uma verdadeira escola quem dela sai para a vida sem saber pensar, argumentar e discernir. A primeira condição para viver melhor é conhecer mais coisas, inclusive sobre a própria situação e as possibilidades de mudar. Não tomando, invadindo e assaltando, mas crescendo enquanto ser humano e membro produtivo da comunidade: família, trabalho, cidade, país”.

(...)

Imagem 1: Capa do livro "Em Outras Palavras"

Imagem 2: Lia Luft: Questionadora e instigante

A POESIA DE BOM CONSELHO DE RONALD FIGUEIREDO MONTEIRO

MÃE TERRA

Ronald Figueiredo Monteiro
Bom Conselho 1941

Poeta e religioso católico pernambucano


A terra sempre se devolve,
e nos devolve.
Cada fruto é um zigoto,
um aborto
ferido a punhais.
A terra sangra,
devolvendo sangues esfriados,
coalhos do que abraça em seu regaço,
náufragos e afogados nas rosas,
safiras,
excrementos.
Os lavradores partejam ressurreições.

ALVARENGA PEIXOTO: O POETA INCONFIDENTE

Inácio José Alvarenga Peixoto, poeta fluminense (Rio de Janeiro 1744 – Ambaca, Angola 1793), estudou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janei...