quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O BASHÔ BAIXOU NA POMPÉIA – OS HAI-KAIS INTIMISTAS DE LÚCIA SANTOS

Resenha
por Enzo Carlo Barrocco


“Uma Gueixa...”: hai-kais à moda ocidental.

A poeta Lúcia Santos lançou no mês de fevereiro deste ano o livro “Uma Gueixa Para Bashô” (Editora Babel, 2007), que conta com 62 hai-kais. Este pequeno poema de origem japonesa que teve como seu idealizador o poeta Matsuo Munefusa, o Bashô (Yedo, atual Tókio 1644 – Osaka 1694), consiste de 3 versos com 17 silabas poéticas, tratando sobre as estações do ano. Muitos poetas hoje, principalmente os ocidentais, fogem a essas regras inflexíveis, dando formas menos ortodoxas ao hai-kai. Os pequenos textos eróticos de Lúcia, por sinal, fogem completamente à filosofia do gênero. No entanto, é nessa linha que Lúcia trabalha buscando a síntese o que para ela se tornou um desafio. A poeta começou a se interessar pelo hai-kai depois de uma leitura da biografia de Bashô escrita pelo poeta paranaense Paulo Leminski (Curitiba 1944 – Idem 1989). Lúcia se apaixonou pela síntese do estilo e desde aí (início da década de 1990) começou a escrever essa modalidade. Segundo a crítica, o livro saiu maduro e esmerado no qual a delicadeza unida à precisão dos poemas virou marca registrada. O crítico literário Paulo Melo Sousa afirma que “os textos não são, na acepção do termo, hai-kais sob a formatação clássica, são na verdade, poemas curtos nos quais a temática é livre, aberta, mas onde a contenção e a densidade foram exaustivamente exploradas”. Aliás, o livro conta com a apresentação de algumas celebridades tais como, Alice Ruiz, Sérgio Natureza, Celso Borges e Chico César. A própria poeta adverte sobre o seu mais recente livro que “pode parecer, ao leitor menos avisado, à primeira vista, que o poema curto é mais fácil de fazer, mas nós sabemos que não é assim, pois temos que dizer tudo o que queremos com o mínimo de palavras, em três versos da forma mais enxuta possível. Meus poemas publicados nos livros anteriores eram mais longos, embora já existisse uma tendência para textos mais simétricos: hoje em dia, já possuo domínio da técnica e já tenho material para outro livro de hai-kais, que pelo menos eu chamo de hai-kais, pois essa denominação é questionável”. Lúcia, inclusive, é irmã do cantor e compositor Zeca Baleiro (Arari, MA 1966). Experimente Lúcia Santos, a maranhense que atualmente mora no bairro da Pompéia, em São Paulo, e que chegou de vez à literatura brasileira.

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TRÊS HAI-KAIS DO LIVRO "UMA GUEIXA PARA BASHÔ"

em tua mão destra
meu violino só

vira orquestra

*
uma trepada em vão
melhor que nada
pior que a solidão

*
eu e eu e este agosto
meu amor só a sol
posto


terça-feira, 9 de outubro de 2007

PÉROLAS DE CARANANDUBA - CANTO Nº 3






ADEMIR DEMARCHI: UM POETA DAS BANDAS DO SUL


ADEMIR DEMARCHI
Maringá 1960
Poeta, ensaísta e jornalista paranaense

O Ciclone de Théophile

O ciclone embora Théophile lhe seja surdo
Também ameaça-me os camafeus
Assim mesmo porém o amo
Terrificante e belo a espiralar-me o
peito
Em sua sina de profícuo signo
Lar agradável, oásis da pira arte
A anular todas as coisas vis
Apesar das quais a palavra arde.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

POR DEBAIXO DE ACHAS

Miniconto

por Enzo Carlo Barrocco


À noitinha eu, meu pai e dois irmãos fomos visitar o professor Joaquim que caíra doente na terça-feira. O fato é que o professor, querendo economizar algum dinheiro, resolveu ele próprio derrubar árvores com a finalidade de confeccionar cavacos para a cobertura da casa que estava estragada. Com um machado às mãos, o professor cortava o tronco de um açacu quando, subitamente, a árvore vergou e, em seguida, veio abaixo e os últimos galhos pegaram o professor que corria atarantado. A situação apontava para remédios caseiros já que a localidade de cinco casas situava-se longe de tudo e de todos. Quando saímos de lá meu pai comentou: é! o professor Joaquim “está por debaixo de achas!”.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

POETAS



TORQUATO NETO: O POETA TROPICALISTA


Torquato Neto
Teresina 1944 – Rio de janeiro 1972
Poeta, compositor e jornalista piauiense


Um Cidadão Comum

Sempre subindo a ladeira do nada,
Topar em pedras que nada revelam.
Levar às costas o fardo do ser
E ter certeza que não vai ser pago.

Sentir prazeres, dores, sentir medo,
Nada entender, querer saber tudo.
Cantar com voz bonita prá cachorro,
Não ver "PERIGO" e afundar no caos.

Fumar, beber, amar, dormir sem sono,
Observar as horas impiedosas
Que passam carregando um bom pedaço
da vida, sem dar satisfações.

Amar o amargo e sonhar com doçuras
Saber que retornar não é possível
Sentir que um dia vai sentir saudades
Da ladeira, do fardo, das pedradas.

Por fim, de um só salto,
Transpor de vez o paredão.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

CASIMIRO DE ABREU: O ANJO ROMÂNTICO

José Marques Casimiro de Abreu poeta e dramaturgo fluminense (Barra de São João 1839 - Idem 1860), era filho de um rico comerciante e dono de terras no Estado do Rio de Janeiro. Estudou humanidades em Nova Friburgo, mas não chegou a concluir o curso, pois foi obrigado a se dedicar ao comércio. Esse episódio o deprimiu muito. Entre 1853 e 1857 viveu em Lisboa onde encenou sua peça “Camões e o Jaú” que, inclusive, obteve certo êxito, embora Casimiro fosse eminentemente poeta. De volta ao Brasil, novamente foi trabalhar no comércio da família. Em 1859, publica o volume de poesias “As Primaveras” com o apoio financeiro do pai. O poeta, depois que voltou ao Brasil, começou a levar uma vida desregrada. Diante disso, o poeta contraiu tuberculose e veio a falecer com apenas 22 anos de idade. O amor expresso em seus poemas é sempre impossível, platônico e idealizado. A saudade é um sentimento bastante cultivado nos versos do poeta, acentuada pela distância da pátria e da família, assim como o lamento da infância perdida. A grande maioria dos críticos torce o nariz para o trabalho de Casimiro, entretanto, no meu entender, a literatura brasileira deve muito a este poeta terno, delicado e inspirado que deixou seus poemas em apenas um livro. O poeta pertence à segunda geração do Romantismo, denominada Byroniana ou Mal do Século. Fiquemos, portanto, com três raríssimas jóias produzidas pelo vasto universo da mente de Casimiro.

TRÊS CANTOS

Quando se brinca contente
Ao despontar da existência
Nos folguedos de inocência,
Nos delírios de criança;
A alma, que desabrocha
Alegre, cândida e pura —
Nesta contínua ventura
É toda um hino: — esperança!

Depois... na quadra ditosa,
Nos dias da juventude,
Quando o peito é um alaúde,
E que a fronte tem calor:
A alma que então se expande
Ardente, fogosa e bela —
Idolatrando a donzela
Soletra em trovas: — amor.

Mas quando a crença se esgota
Na taça dos desenganos,
E o lento correr dos anos
Envenena a mocidade;
Então a alma cansada
Dos belos sonhos despida,
Chorando a passada vida —
Só tem um canto: — saudade!


QUE É - SIMPATIA

Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.

Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.

São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.

Simpatia - meu anjinho,
É o canto de passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d'agosto
É o que m'inspira teu rosto...
- Simpatia - é quase amor!

MEUS OITO ANOS

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem, mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
—Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'alma

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
— Pés descalços, braços nus —
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

....

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!


terça-feira, 2 de outubro de 2007

JIRAU DI/VERSO nº 10

JIRAU DIVERSO
Nº 10 – dezembro.2006
por Enzo Carlo Barrocco

A poesia uruguaia de Delmira Agustini

O POEMA
O INTRUSO

Amor, naquela noite trágica e soluçante
Cantou tua chave de ouro em minha fechadura;
E logo, a porta aberta sobre a sombra arrepiante,
Te vi como uma mancha de luz e de brancura.

Tudo me iluminaram teus olhos de diamante;
Beberam-me na taça teus lábios de frescura,
Na almofada pousaste-me a cabeça fragrante;
Amei-te o atrevimento e adorei-te a loucura.

E hoje rio se ris e canto se tu cantas;
Se dormes, durmo como um cão a tuas plantas!
Na própria sombra levo a tua recendente

Primavera; e, se a mão tocas na fechadura,
Tremo e bendigo a noite que -soluçante e escura-
Floriu na minha vida tua boca amanhecente.

Tradução: Anderson Braga Horta

A POETA

Delmira Agustini, (Montevidéu1887 – Idem 1914) poeta uruguaia. Embora tenha estudado música e pintura, foi na literatura que Delmira, realmente, se destacou, se tornando a maior voz feminina do modernismo uruguaio do início do século XX. Seus poemas eróticos e sensuais são lindíssimos. Em virtude de uma vida conjugal atribulada faleceu tragicamente assassinada por seu ex-marido que não aceitava a separação. Uma vida breve, no entanto intensa e dramática.
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ESTANTE DE ACRÍLICO

Livros Sugestionáveis
“A Rosa Separada” (poesias)
Autor: Pablo Neruda
Edição: L & PM Editores
Neruda homenageia neste livro a fantástica ilha de Páscoa. O poeta fala das belezas naturais da ilha, tanto quanto dos homens que a habitam. Em edição bilíngüe.

“A Morte de Ivan Ilitch ” (novela)
Autor: Leon Tolstói
Edição: L & PM Editores
Com uma narrativa clara, Tolstói, neste trabalho, nos leva a uma reflexão. A agonia e o lento caminho para a morte de um burocrata que se depara, subitamente, com uma doença incurável.

“Antilogia” (poesias)
Autor: Ruy Barata
Edição: R.G.B. Editora / Secult
Neste livro bem se nota a escrita aguçada de Ruy. Excelentes poemas, com a musicalidade que só esse paraense de Santarém poderia conceber.
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A FRASE DI/VERSA

Teu corpo claro e perfeito / - teu corpo de maravilha – / quero possuí-lo no leito / estreito da redondilha.
- Manuel Bandeira (Recife 1886 – Rio de Janeiro 1968) poeta, cronista e ensaísta pernambucano.
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DA LAVRA MINHA



ADÃO VENTURA: O POETA DA RAÇA


Adão Ventura
Santo Antônio do Itambé 1946 – Belo Horizonte 2004
Poeta mineiro


FAÇA SOL OU FAÇA TEMPESTADE


faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.

faça sol ou faça tempestade
meu corpo é cercado
por estes muros altos,
— currais
onde ainda se coagula
o sangue dos escravos.

faça sol
ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

O DIÁRIO DOS PENSADORES - PÁGINA 11

Quando não sabe o que está fazendo, o pintor faz coisas boas.
- Edgar Degas (Paris 1834 – Idem 1917) pintor, gravador e escultor francês

Poesia é poder. Só em nosso país se fuzila um homem por causa de um verso.
- Ossip Mendelstam (Warschau 1891 - Wladiwostock 1938) poeta russo

Escrevo para descobrir o que estou escrevendo.
- E. L. Doctorow (Nova York 1931) ensaísta americano

As idéias: há que vivê-las.
- André Malraux (Paris 1901 - Verrières-le-Buisson 1976) romancista e ensaísta francês

Há grande demanda, hoje, de pessoas que façam o errado parecer certo.
- Terêncio (Cartago 195 – Idem 159 a C.) dramaturgo romano nascido em Cartago

O absurdo é o sal da vida.
- Ledo Ivo (Maceió 1924) poeta, romancista e cronista alagoano

A morte não existe quando se cumpriu bem a obra da vida: transforma-se em pó o crânio pensador; mas vivem perpetuamente e frutificam os pensamentos que nele se elaboraram.
- José Marti (Havana 1853 – Dos Rios 1895) poeta, ensaísta e jornalista cubano

A grande maioria das pessoas só trabalha quando a necessidade as obrigam a isso.
- Karl Marx (Trier 1818 – Londres 1883) economista, político, filósofo e ensaísta alemão

A repetição destrói qualquer prazer: gastronômico ou sexual.
- Archibald Joseph Cronin (Cardross 1896 – Montreux, Suíça 1981) médico e novelista escocês

O jornalismo permite aos leitores testemunharem a história. A ficção permite que a vivam.
- John Hersey (Tientsin 1914– Key West, EUA, 1993) novelista e jornalista americano nascido na China

As únicas armas que funcionam contra idéias ruins, são idéias melhores.
- Alfred Whitney Griswold (Morristown 1906 - New Haven 1963) pedagogo e historiador americano


ALVARENGA PEIXOTO: O POETA INCONFIDENTE

Inácio José Alvarenga Peixoto, poeta fluminense (Rio de Janeiro 1744 – Ambaca, Angola 1793), estudou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janei...