sexta-feira, 13 de julho de 2007

RESISTINDO A TODAS AS OPRESSÕES - DE REPENTE UMA FÁBULA ISRAELENSE


Capa do livro: De Repente nas Profundezas do Bosque

Resenha
por Enzo Carlo Barrocco

De Repente nas Profundezas do Bosque (Companhia das Letras, 2007, 148 páginas) é o novo livro do poeta, romancista e ensaísta israelense Amos Oz (Jerusalém 1939), um inconformado cidadão preocupado com os rumos tomados pela política de seu país. Neste mais novo trabalho, Amos Oz dá algumas alfinetadas no atual regime governamental de Israel criando uma história que diz bem o seu sentimento de inconformismo com as questões sociais. O livro se reporta à opressão, discriminação, violência, mostrando, entretanto, caminhos que levam à resistência a todos esses problemas. A história fala de um lugar paradisíaco onde não existe nenhum animal. Nas escolas é ensinado que todos os animais foram para o bosque, local terminantemente proibido e que, acredita-se, vive um misterioso demônio. O garoto Mati e sua amiga Maia, desconfiados com os donos do poder, resolvem entrar na floresta mesmo correndo todos os riscos. O questionamento é a principal função deste romance. Amos é um escritor que luta pela paz e em 2005 ele recebeu o prestigiado prêmio Goethe pelo seu irrepreensível sentido de responsabilidade moral do conjunto de sua belíssima obra. Politicamente Amos é ligado à esquerda israelense e participa ativamente do movimento “Israeli Peace Now” desde a sua fundação, em 1977. Diante de todas essas características Amos se vale do prestígio que detém em muitos países do mundo para denunciar, através de excelentes fábulas como esta. “De Repente nas Profundezas do Bosque” então é isso: uma fábula para mostrar a todos nós os bons caminhos que devamos seguir.

TRECHO DO LIVRO “DE REPENTE NAS PROFUNDEZAS DO BOSQUE”

CAPÍTULO I

A professora Emanuela explicou à classe como é um urso, como os peixes respiram e que sons a hiena produz à noite. Ela também pendurou na sala gravuras de animais e aves. Quase todos os alunos debocharam dela, porque nunca na vida tinham visto um animal sequer. E muitos deles não acreditaram que existissem no mundo tais criaturas. Pelo menos nas redondezas. Sem contar, disseram, sem contar que a professora não tinha conseguido encontrar na aldeia alguém que topasse ser seu marido, e por isso, disseram, a cabeça dela estava cheia de raposas, pardais, todo o tipo de invencionice que as pessoas sozinhas criam devido à solidão.

Só o pequeno Nimi, de tanto ouvir o falatório da professora Emanuela, começou a ter sonhos com animais à noite. A turma ria dele quando chegava contando, logo pela manhã, como seus sapatos marrons, que durante a noite ficam ao lado da cama dele se transformavam em dois ouriços que se arrastavam e examinavam o quarto a noite inteira, mas de manhã, quando ele abria os olhos, os ouriços voltavam de repente a ser um simples par de sapatos ao lado da cama. Numa outra vez, morcegos negros vieram à meia-noite, levaram-no sobre as asas e voaram com ele através das paredes da casa pelo céu da aldeia e por sobre os montes e os bosques, até que o conduziram a um palácio encantado.

Nimi era um menino um pouco descuidado, e andava quase sempre com o nariz escorrendo. Além disso, entre os salientes dentes da frente havia um belo intervalo. As crianças chamavam esse espaço de poço de lixo.

Todas as manhãs Nimi chegava à sala e começava a contar a todos um novo sonho, e todas as manhãs diziam-lhe chega, já ficou chato, fecha o teu poço de lixo. E quando ele não parava, atormentavam-no. Mas Nimi, em vez de ficar ofendido, também participava do deboche. Fungava e engolia o catarro, e começava de repente a chamar a si mesmo, numa alegria transbordante, exatamente pelos apelidos pejorativos que as crianças lhe deram: Poço de Lixo, Sonhador, Sapato-Ouriço.

Maia, a filha de Lília, a padeira, que sentava atrás dele na sala, cochichava algumas vezes: Nimi. Escuta. Você pode sonhar com o que quiser, com animais, com meninas, mas fique quieto. Não conte. Não vale a pena.

Mati dizia a Maia, você não entende, Nimi sonha só para contar os sonhos. E geralmente os sonhos dele não se interrompem nem quando ele acorda pela manhã.

Tudo divertia Nimi e tudo despertava nele alegria: a xícara rachada da cozinha e a lua cheia no céu, o colar da professora Emanuela e seus próprios dentes salientes, os botões que esqueceu de abotoar e o rugido dos ventos no bosque, tudo o que existe e acontece parecia engraçado a Nimi. Em todas as coisas via um motivo suficiente para se arrebentar de rir.

Até que uma vez ele fugiu da sala de aula e da aldeia, e entrou sozinho no bosque. Durante dois ou três dias, procuraram-no quase todos os aldeões. Por mais uma semana ou dez dias, procuraram-no os guardas. Depois, apenas seus pais e a irmã continuaram a procurar por ele.

Passadas três semanas ele voltou, magro e imundo, todo arranhado e machucado, mas relinchando de tanto entusiasmo e alegria. E desde então o pequeno Nimi não parou mais de relinchar e tampouco tornou a falar: não pronunciou nenhuma palavra desde que voltou do bosque, e só ficava circulando descalço e esfarrapado pelas ruelas da aldeia, o nariz escorrendo, mostrando os dentes e o intervalo entre eles, se metendo entre os pátios de trás, subindo nas árvores e postes, relinchando o tempo todo, com o olho direito lacrimejando sem parar por causa da sua alergia.

Era totalmente impossível voltar a freqüentar a escola por causa da "doença do relincho". As crianças, quando saíam da aula, provocavam-no intencionalmente, para que ele relinchasse. Eles o chamavam de Nimi, o potro. O médico esperava que isso fosse passar com o tempo: talvez ali, no bosque, ele tivesse se deparado com alguma coisa que o assustou ou abalou, e por enquanto está com a doença do relincho.

Maia dizia a Mati: será que eu e você deveríamos fazer alguma coisa? Como podemos ajudá-lo? E Mati respondia: deixa pra lá, Maia. Daqui a pouco eles vão se cansar disso. Daqui a pouco eles vão esquecê-lo.

Quando as crianças lhe davam um chega-pra-lá com zombarias, e atiravam pinhas e cascas sobre ele, o pequeno Nimi corria, relinchando. Subia bem alto nos galhos da árvore mais próxima e de lá, em meio às ramagens, se voltava para eles relinchando, com um olho lacrimejando e os dentes da frente salientes. E às vezes, até no meio da noite alta, parecia que se ouvia ao longe o eco de seu relincho no escuro.



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